100 Lisboetas que tens de conhecer!

#31 – Guilherme Duarte

31 anos, Engenheiro Informático, nascido, criado e (ainda) residente na bela localidade da Buraca. Cedo aprendeu que fazer rir era bom, sobretudo para desarmar assaltantes. Gosta de escrever, fotografar, ver séries e filmes pirateados e dança jazz para acender luzes nas casas de banho públicas. É cinturão branco de Jiu Jitsu, coisa que vale tanto em termos de defesa pessoal como ter herpes.
Como a vida de informático era demasiado bem humorada, decidiu aventurar-se no mundo do humor. Criou, há cerca de ano e meio, o blogue Por Falar Noutra Coisa que, segundo a avó dele, é o melhor blogue do mundo. A opinião da avó do Guilherme vale o que vale, já que ela tem Alzheimer e não se lembra que é analfabeta.
Já trabalhou numa grande consultora, despediu-se para viajar pela Europa em busca dos melhores artistas de rua e, agora, trabalha numa incubadora de ideias digitais. É um polivalente, que é o como quem diz que não sabe fazer nada em concreto. Concilia esse trabalho a tempo inteiro, com a sua faceta de blogger e comentador da actualidade. Não se assume como humorista, porque isso era o mesmo que dizer que é futebolista por jogar futebol, de vez em quando, com amigos.
É sem dúvida um homem que nos faz rir e só por isso merece o nº 31 desta lista!

Diz-me quem é o Guilherme Duarte visto de fora?
Com a pergunta feita desta forma, sinto-me tentado a falar na terceira pessoa, qual jogador de futebol. Infelizmente, nunca tive muito jeito para a bola, embora tenha sido guarda-redes do Recreativo da Buraca, mas só durante uma pré-época. Por isso, o Guilherme Duarte sou eu e, eu visto de fora, pareço uma pessoa normal. A minha mãe diz, inclusivamente, que eu sou muito lindo. Sou um gajo tímido, que não gosta de grandes conversas com desconhecidos e que prefere estar a ouvir e a observar do que a fazer conversa de circunstância. No meu grupo de amigos, aí sim, sou um dos parvalhões de serviço, que sugere as ideias para fazer coisas sobre as quais há arrependimento na manhã seguinte. Sou um espécime masculino, com 31 anos, que já tinha barba antes de virar moda. De vez em quando faço-a, quando tenho receio que algum jihadista, toureiro ou padre, ande à minha procura. Se forem os três em conjunto, chego inclusivamente a rapar o cabelo.

És alfacinha de berço, com devoção ou por convicção?​
Eu não sei quem faz as regras, mas tenho para mim que nascer e crescer na Buraca, pese embora esteja no distrito de Lisboa, não seja considerado ser alfacinha. Faz muito mais sentido que seja considerado muambinha ou cachupinha. De qualquer das formas, sinto-me Lisboeta com devoção e por convicção. Chego a atravessar a fronteira da Amadora/Lisboa, para ir a Benfica, ao Colombo.

P​orque achas que foste escolhido para esta lista de 100 Lisboetas que todos devem conhecer?
Tenho quase a certeza que foi pelo meu excelente trabalho ao nível da gestão de projecto e de produto, na empresa onde trabalho. É um trabalho com muita visibilidade e toda a gente sabe que as pessoas pelam-se e idolatram Engenheiros Informáticos. Não consigo andar na rua sem ouvir as pessoas a gritar, “Ah ganda Engenheiro! Faz-me um filho com o teu microchip!” ou ainda, um “És o maior a gerir tarefas da equipa e a trabalhar sobre pressão!”. É um mundo muito glamouroso este das startups e das novas tecnologias.
Para além disso, tenho o hobbie de escrever alarvidades num blog que parece que há gente que gosta. As pessoas são umas bestas. Faço também Stand Up Comedy em muitos bares, que por vezes chegam a ter 10 pessoas de pé, isto porque não têm mais de 10 lugares sentados.
Quem quiser conhecer mais é ir aqui.

Qual foi a pior ideia que tiveste até hoje?
A pior ideia que já tive foi sem dúvida achar que ia ser giro tirar o curso de Engenharia Informática e, ainda por cima, no Instituto Superior Técnico. Foi lá que morreu a minha criança interior. Está algures enterrada e com o cadáver profanado, numa das catacumbas do pavilhão de Informática. Já passou e acho que me deu estaleca e traumas para hoje fazer o que faço e que gosto. Se soubesse o que sei hoje, se calhar, tinha ido para Sociologia e estaria a trabalhar na área, que é como quem diz num call center. Nada contra quem trabalha nos call centers, mas como já disse, odeio falar com desconhecidos. Ao telefone, ainda pior.
Outras más ideias que já tive:
Ir às urgências do Amadora-Sintra, seja qual for a razão. Mais vale ficar em casa e falecer.
Experimentar sushi pela 2ª e 3ª vez. Continua a ser tão mau como da 1ª. Já não me enganam mais.
Descer um lanço de escadas, montado num pára-choques com mais 3 amigos, qual tobogã do gueto. Eu safei-me porque era uma criança maçuda, mas o resto foi tudo para casa com dói-dói.

Que projectos estás a cozinhar neste momento no teu forno encefálico?
Sou uma pessoa que tem muitas ideias. Dezenas delas por dia, a maioria delas más e que nunca vão a lado nenhum. Sou preguiçoso e tirá-las da gaveta dá trabalho. Tenho muitas em banho-maria, outras já no gratinar final e quase prontas a ser servidas. Não sei se já posso dizer isto, mas vai haver um livro em breve nas bancas; poderá haver um projecto de sketchs diferente do que estamos habituados a ver e, acima de tudo, vai haver mais textos e crónicas que, se tudo correr bem, vão ofender muita gente, mas fazer rir e entreter muitas mais.

Há algum segredo que ainda falte revelar sobre ti?
Haver há vários, mas não me interessa que as pessoas saibam e não interessa às pessoas saberem, porque não querem saber da minha vida para nada. Posso, no entanto, revelar que já cometi um crime, o que, sendo eu da Buraca, não é de espantar ninguém: Trabalhei na FIL de artesanato em 2002, durante uma semana, a vender artigos numa banca Russa. Juro que não foi nenhuma cunha devido aos contactos na máfia de leste. O dono daquilo dizia aos clientes que eram tudo peças únicas e pintadas à mão e, depois, vim a descobrir caixotes com centenas de artigos iguais. Aliado a isso, tinha-me garantido que iria ter uma hora para jantar mas já só queria dar-me 15 minutos para eu manter este meu belo corpinho satisfeito. Como não gosto de trabalhar para aldrabões, tirei sempre 20 euros a mais por dia da caixa e aldrabei as contas. Sou extremamente criativo em termos de contabilidade. No último dia, embebedei-me com martinis e deitei abaixo uma parte da banca. Parti uma catrefada de artigos! Sorte a dele que afinal não eram únicos e originais.

Gostas de alfaces?
Não sou muito amigo de coisas verdes, exceptuando o facto de ser do Sporting. No entanto, gosto de uma boa salada de alface, bem temperada e sem folhinhas de rúcula, que isso é disparate. Gosto especialmente dos talos e não vamos estar aqui a fazer piadas ordinárias sobre isso.

Para ti Lisboa é…
É a cidade que tenho mais pena de nunca poder visitar como turista. Queria saber o que é chegar de outro país e ir até ao Terreiro do Paço e cair-me o queixo. Ter a sensação de novidade ao passear pelas ruas típicas, ao provar as comidas e ao sentir o calor das pessoas (num sentido não sexual), sem tomar isso tudo como garantido. Já tive oportunidade de fazer uma viagem por 18 cidades da Europa e, embora tenha adorado muitas delas, acho sinceramente que se não conhecesse Lisboa e estivesse nesse lote, teria sido a minha preferida. Acho que não lhe damos o valor que merece. Tanto a Lisboa como a outras tantas cidades deste nosso cantinho à beira mar desgovernado.

Revela-nos qual a tua 2ª cidade, a seguir a Lisboa, obviamente!
Ora aí está uma pergunta complicada. Em Portugal é o Porto, gosto do carisma e genuinidade das pessoas. No resto do mundo, que só visitei na Europa, acho que Budapeste seria a minha cidade de eleição. Não tem a ver com o facto de ser a cidade com mais actrizes pornográficas, se é isso que estão a pensar. Gosto da vida que tem e do potencial enorme que se vê que está por explorar. Cracóvia, Praga e Brugge também são impecáveis, mas para visitar, não me via a morar lá porque ia dar cabo do fígado num instante.

Se fosses Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, qual a tua primeira medida?
Primeiro, retirava aquela lei parva dos bares fecharem mais cedo e não se poder beber na rua. O Bairro Alto é um local único na Europa e querem matá-lo. Sim, há barulho, lixo e criminalidade… e então? Tenho esperança de que como quem se queixa disso são as velhas, tudo volte ao normal depois delas falecerem.
Abolia também aquela palhaçada dos carros mais velhos não poderem circular no centro de Lisboa e fazia o seguinte: abolia todos os carros, diminuía o imposto de circulação e melhorava os transportes públicos. Permitia o UBER que é para os taxistas não terem a mania que são espertos.
Por fim, fazia alguma coisa com as casas abandonadas no centro histórico de Lisboa. Lisboa tem cerca de 800 sem-abrigos. Não sei como se resolve isso, mas não conseguia dormir bem à noite se presidisse a Câmara de uma cidade que tem casas abandonadas e pessoas a dormir na rua.
Era isto, andava tudo bêbedo, não havia trânsito, nem pessoas a dormir na rua. Provavelmente levaria tudo à falência num instante.

O que gostarias de ver em Lisboa na próxima semana, no próximo mês e no próximo ano?
Gostaria que continuasse a ser considerada uma das melhores cidades para visitar mas, gostaria sobretudo, que fosse considerada das melhores cidades para viver e trabalhar, já que era sinal que Portugal estava melhor. Quero que continue a ser considerada um hot spot para startups e investimento tecnológico, porque acho que pode estar aí o futuro. Infelizmente isso vai atrair muitos nerds e menos estrangeiras gostosas, mas é um preço que estou disposto a pagar.
O meu lado revolucionário gostava de ver 2 milhões de pessoas na rua em protesto, mas sem cerveja, ganza e música. Era fazer como fizeram os estudantes em Hong Kong, uma coisa à séria. Eu digo isto mas ia ficar em casa.

Lisboa tem prazo de validade?
Tem. 12-04-2034, por volta das 14.32h. Agora a sério… é dia 14 e não 12. Vá, pronto, agora sem brincadeiras. Acredito que tenha e acho que deve ter consciência de que tem, caso contrário deixa de se tentar renovar e melhorar. Se quem a governa souber cuidar dela e quem nela vive souber escolher quem governa, acho que o prazo de validade será sempre extensível, por tempo indeterminado. Acho que a temos que a aproveitar ao máximo porque todos sabemos que, mais cedo ou mais tarde, irá ocorrer um terramoto, daqueles grandões, que vai mandar isto tudo abaixo e matar dezenas de milhares de pessoas. Ficou um clima pesado agora. Peço desculpa.

Qual é a primeira coisa em que pensas quando regressas a Lisboa?
Depende, normalmente se estou de regresso é porque acabaram as férias, então, há uma dicotomia de sentimentos em que, por um lado, estou com um brilho nos olhos que reflecte a luz da cidade e, por outro, com uma lágrima por ter de ir trabalhar no dia seguinte. Se estiver a voltar de avião, a primeira coisa que penso quando aterro é “Estou vivo!!!”.

Se Lisboa fosse uma posição sexual, qual seria?
Lisboa não pode ser só uma, tem muito mais para dar que uma queca mal amanhada, sempre na mesma posição. Lisboa seria uma maratona sexual daquelas que se vê o sol nascer:
Cais do Sodré e Bairro Alto seriam o 69, tudo virado do avesso e peganhento.
No Chiado não sei, porque sobre sexo entre homens percebo pouco.
Ali no Rato, nos lados da Assembleia, seria o piledriver que é a posição onde dá para encavar mais fundo.
Belém seria missionário, a ver o rio e com os Jerónimos como pano de fundo. Todos besuntados em recheio de pastéis de Belém, claro.
Alfama seria de pé, contra uma parede que cheira a urina e tem um graffiti a dizer: “Kátia, amote bués-de!”
Monsanto seria qualquer uma. Teria que se pagar no fim, mas ao menos respirava-se o ar puro do pulmão da cidade.
Quinta do Mocho, Bairro da Bela Vista e na Cova da Moura a posição seria a canzana. À bruta, com umas palmadas à mistura e, acima de tudo, sem encarar os problemas nos olhos.

Sugere-nos outras pessoas dignas da referência “100 Lisboetas que tens de conhecer!”.
Valete, um dos nossos melhores rappers e meu vizinho da Damaia. Acho que deviam falar com ele até porque pelo que vi da vossa lista ainda não entrevistaram nenhum preto e ainda vos acusam de racismo.
Senhor simpático da portagem da 25 de Abril. Acho que até tem uma página de fãs e é a prova que, seja qual for o trabalho, se pode ser bom, dar o máximo e tratar bem as pessoas. Há quem diga que ele tem um atraso cognitivo, mas eu gosto de pensar que ele tem um avanço de inteligência emocional.
Sugeria também o Senhor do Adeus mas não sei se aquela bruxa da TVI que fala com os mortos ainda está por cá. Ficou outra vez um clima pesado. Peço desculpa.