100 Lisboetas que tens de conhecer!

#40- Rodrigo Amado 

Quando lhe perguntam que tipo de música é a dele, a resposta resume-se a três palavras: eu toco jazz. A pergunta não é inocente e já o dissemos aqui, o jazz de Rodrigo Amado não é para meninos, muito menos para os puristas do clássico. Defensor de estilos mais livres, a música dele é isso mesmo: em cada concerto, um arranque violento de energia que transforma quem a ouve. Os consensos podem ir para o raio que os parta, compromissos estabelecem-se apenas com os homens de palco, o amor reside no linguajar ecléctico do som.

2015 foi um ano em grande para este saxofonista de Lisboa: realizou uma longa tournée europeia com o seu Motion Trio, tendo como convidado o trompetista Peter Evans, além de uma série de concertos em Portugal. Lançou o álbum, This is our language, com três das figuras mais relevantes do jazz livre actual: Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano. Mencionado por diversas vezes em meios internacionais, este trabalho acabou por ser votado #1 Best Album of the year pelo Free Jazz Blog, um colectivo de críticos liderado por Stef Gijssels.

Rodrigo Amado é um homem reservado cuja pathos se revela em palco. Sabedor de si mesmo, demonstra outras facetas na fotografia e na palavra escrita. Deixemo-lo falar.

Diz-me quem é o Rodrigo Amado visto de fora?
Um músico e fotógrafo. O gajo do sax. O pai da Maria e da Laura.

És alfacinha de berço, por devoção ou por convicção?
De berço, nasci em Alvalade e sempre vivi em Lisboa. Mas também por convicção e devoção. Lisboa é a base ideal para se sair para o mundo e depois regressar. Mas é preciso sair.

Como é que um licenciado em Gestão ganha coragem e manda tudo à fava por causa de um saxofone?
Isso acontece quando uma pessoa percebe que uma das coisas mais importantes e mágicas da vida é fazer o que se gosta. Foi uma das decisões mais difíceis que tomei, mas que afinal era tão fácil.

Tiveste um 2015 do caraças (em Portugal e por esse mundo fora). Quais são os teus desejos de som para 2016?
O meu maior desejo é continuar a trabalhar como até aqui. Tocar muito. Conseguir ir cada vez mais longe como músico e entrar definitivamente no circuito europeu de clubes e festivais.

Se tivesses o dom de ressuscitar alguém, que músico trarias ao presente para tocar contigo?
Se tivesse esse dom, não o gastaria com um músico. Há tantos músicos incríveis vivos com os quais gostaria de tocar. Ressuscitava antes uma personalidade como Martin Luther King ou Mahatma Gandhi. A loucura que vai por esse mundo fora precisa de líderes mais inspirados.

Que projectos estás a cozinhar neste momento no teu forno encefálico?
Estou a misturar quatro novos discos (!), a preparar duas tours com projectos diferentes, uma no Brasil e outra na Europa. Estou também a trabalhar intensamente em fotografia, com vontade de fazer uma nova exposição até ao final do ano / início de 2017.

Há algum segredo que ainda falte revelar sobre ti?
Alguns. E são exactamente isso, segredos.

Qual foi a pior ideia que tiveste até hoje?
Tentar conduzir sem mãos uma bicicleta de montanha.

O que mudarias na tua vida hoje, olhando para trás?
Nada. Mesmo.

Gostas de alface?
Sou viciado em salada e picante. Principalmente tomate, cebola, beterraba e pimento, mas também alface.

Para ti Lisboa é…
Casa. A minha cidade, com uma luz e energia únicas. Um oásis de paz, tolerância e humanidade.

Revela-nos qual a tua 2ª cidade, a seguir a Lisboa, obviamente!
São várias, dependendo do estado de espírito. Berlim, Marraquexe, Nova Iorque ou São Francisco.

Se fosses Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, qual a tua primeira medida?
Fazer uma lei que proteja o comércio local da voragem turística e do investimento estrangeiro. Hotéis e hostels, sim senhor, mas preservando os espaços emblemáticos que existem na cidade e que são afinal a razão pela qual os turistas visitam Lisboa. O fecho recente de instituições alfacinhas como os restaurantes Palmeira e Fernando, na Baixa, não podia ter acontecido. Fazem parte da história e património imaterial da cidade.

O que gostarias de ver em Lisboa na próxima semana, no próximo mês e no próximo ano?
Um presidente da câmara que tenha garra para os desafios que a cidade está a atravessar.

Lisboa tem prazo de validade?
Não. Lisboa transforma-se, lentamente e com elegância.

Qual é a primeira coisa em que pensas quando regressas a Lisboa?
Que sorte viver aqui!

Desejo para 2016?
Que descubram um novo modelo de organização da sociedade. Este não está a dar.

Porque achas que foste escolhido/a para esta lista de 100 Lisboetas que todos devem conhecer?
Esse é um dos meus segredos.

Sugere-nos outras pessoas dignas da referência “100 Lisboetas que tens de conhecer!”.
Podia dar-te uns 700 nomes de lisboetas fascinantes, que fazem coisas incríveis e importantes, mas não ia caber.