100 Lisboetas que tens de conhecer!

#47 – Afonso Cruz

Vou deixar uma coisa bem clara: eu não conheço pessoalmente o Afonso Cruz. Depois de ler o seu primeiro livro, com a curiosidade desbragada que me assiste, fui saber quem era. E descobri o que, com toda a probabilidade, tu também sabes: que é ilustrador, realizador de filmes de animação e que compõe para a banda The Soaked Lamb. É verdade que tudo isto enriquece o escritor mas, no meu caso, o que me agarrou foram os títulos. Não é habitual um homem que escreva ‘Flores’, ‘Os Livros que devoraram o meu pai’, ‘Para onde vão os guarda-chuvas’, ‘O pintor debaixo do lava loiça’, ou é? Não, não é.

Como dizia, os títulos agarraram-me, a eles vieram colados os livros e as histórias; e estas últimas fizeram o maior sentido do mundo porque só não acha a vida surreal quem não a vive. Por isso, durante muito tempo não quis conhecer o escritor: não me apetecia nada a desilusão. Pois… Mas a curiosidade, essa rapariga incansável, bateu à porta.
Julguem pelas vossas lindas cabecinhas, se fazem favor.

Diz-me: quem é o Afonso Cruz visto de fora?
Não sei. Gostaria de poder ter a possibilidade de fazer esse tipo de turismo, sair de dentro de mim e olhar-me de fora, mas como disse o Manoel de Barros: Não saio de dentro de mim nem pra pescar.

És alfacinha de berço, por devoção ou por convicção?
Vivi trinta anos em Lisboa. Tenho a sensação de que o meu sistema nervoso corresponde às ruas de Alfama e é bem possível que, ao olhar para um rio, o veja sempre através do Tejo.

Quem te empurrou a contar histórias primeiro? O desenho ou as letras?
Olhando para o passado, acho que o empurrão foi dado pela leitura de banda desenhada.

Confessa: qual deles tem o papel de amor e o papel de amante?
Nenhum, é um threesome.

Consegues escolher 3 livros que consideres perfeitos (pronto, podem ser 5)?
Creio que uma vez perguntaram isso a Oscar Wilde e ele respondeu: Não posso nomear três porque ainda só escrevi um. Eu, ao contrário dele, tenho estantes inteiras de livros que foram e são muito importantes para mim. Não sei se são perfeitos, mas escolheria vários romances de Kazantzakis e Dostoievski e Thomas Mann e Kurt Vonnegut, o livro Cidadela de Saint-Exupéry, Flatland, os tratados de Nicolau de Cusa, E. E. Cummings, o Masnawi, Pessoa, Erich Fromm, Lem, Dylan Thomas, Platão, Borges, etc., etc.

Que projetos tens entre mãos?
Tenho vários livros acabados e vários a meio, um de não-ficção, uma novela, um romance, um volume da enciclopédia, poesia…

Qual foi a pior ideia que tiveste até hoje?
Não sei se é possível nomear uma. Tenho tantas. Há também uma coisa curiosa em relação às más ideias, é que por vezes acabam por se tornar boas ideias. A maior parte das grandes descobertas, na altura, não passavam de erros. Ainda chamamos índios aos nativos americanos por causa do engano de Colombo, que achou ter chegado à Índia.

O que mudarias na tua vida hoje, olhando para trás?
Pequenas coisas, que têm a ver com os afectos. É um chavão, mas quando perdemos amigos e familiares, ficamos com a sensação amarga de não termos dito tudo, de não termos partilhado com mais desprendimento.

Para ti Lisboa é…
Neste momento, porque vivo no Alentejo e passo muito tempo a viajar, Lisboa é sobretudo o lugar onde vou apanhar o avião. Há uns anos era a minha casa e não deixa de ser um lugar de retorno e de grande conforto interior. Apesar de muitos dos meus amigos mais próximos terem emigrado, é também um lugar de reencontro com os que ainda ficam.

Se fosses Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, qual a tua primeira medida?
Se eu fosse presidente da Câmara de Lisboa, a minha primeira medida seria arranjar alguém competente para me substituir imediatamente.

O que gostarias de ver em Lisboa na próxima semana, no próximo mês e no próximo ano?
Teria de perguntar isso ao meu substituto na presidência da Câmara. Enfim, assim de repente, gostaria que, para a semana, nem todas as lojas históricas da baixa se convertessem em hotéis ou em “tascas gourmet” (começo a gostar de alumínios e daquela luz fluorescente que faz parecer estarmos a jantar na casa de banho). Para o próximo mês, transportes públicos eficientes e mais árvores e, para o próximo ano, concertos semanais do Tom Waits.

Lisboa tem prazo de validade?
Não creio. Se 1755 não a derrotou…

Qual é a primeira coisa em que pensas quando regressas a Lisboa?
A quem vou telefonar para irmos beber um copo. E ainda: porque é que os lisboetas quando entram dentro de um automóvel se transformam em monstros?

Desejo para 2016?
Igual para todos os anos: justiça social. Desejar menos do que isso é desistir da humanidade.

Porque achas que foste escolhido para esta lista de 100 Lisboetas que todos devem conhecer?
Não sei, talvez porque as pessoas responsáveis pelas escolhas não sejam muito responsáveis.

Sugere-nos outras pessoas dignas da referência “100 Lisboetas que tens de conhecer!”.
Há muitos, mas talvez o Carlos Guerreiro (designer), as escritoras Dulce Maria Cardoso, Joana Bértholo e Patrícia Portela, o Pedro Vieira…