100 Lisboetas Que Tens De Conhecer!

Fotografia: Copyright Gonçalo F. Santos

#50 – João Barbado

Nascido em Lisboa em 1979, passou a infância no Barreiro (terra de onde a família é originária). Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito e foi Advogado de empresa durante uma década. Pós-graduou-se em “Mercados de Arte” pelo Sotheby’s Institute of Art em Londres e decidiu abrir a sua própria Galeria de Arte em 2015, a Barbado Gallery, que está a colocar Lisboa na rota das grandes exposições de fotografia. É que João tem trazido nomes sonantes à nossa cidade, como foi com Martin Parr e como será agora, a partir de 9 de Abril com Steve McCurry. Mas atenção, João Barbado não traz só as obras para vermos expostas nas paredes da galeria, até agora o próprio artista tem estado sempre presente na inauguração!
João trabalha muito, mas é muito feliz.

Diz-me quem é o João visto de fora?
É mais ou menos parecido com o João que existe da parte de dentro. Se calhar um bocadinho mais reservado e cauteloso.

És alfacinha de berço, por devoção ou por convicção?
Um pouco dos três, na verdade. Nasci em Lisboa, mas sempre vivi do outro lado do rio (no Barreiro). Apenas quando acabei a faculdade vim viver para a capital. No entanto, como todos os que passaram algum tempo em Lisboa, apaixonei-me por todos os recantos desta cidade. Sou tão parte dela como ela de mim.

Que projetos tens em mãos?
O meu projecto principal é a Galeria de fotografia que inaugurei há menos de um ano em Campo de Ourique. Gerir um espaço destes, com exposições públicas de dois em dois meses é mais difícil do que aparenta. E consome muito da nossa energia. Até ao fim do ano, a Galeria tem um programa bastante ambicioso e variado, que vai continuar a trazer a Portugal grandes nomes da fotografia internacional.

A Barbado Gallery é um ato de coragem e algo que faltava a Lisboa. Com que desafios te tens deparado?
O principal, e sem dúvida o mais complicado dos desafios, é a falta de cultura do nosso país. O público português é muito pouco interessado e informado. Os meios culturais são muito herméticos e circulares. Mas o bom é que nada disso é inevitável! Acredito que a contínua exposição à cultura tem o poder real de mudar as pessoas e os comportamentos. Por essa razão faço da minha Galeria um espaço o mais público e aberto possível. Um sítio onde espero que todos se sintam bem-vindos e confortáveis.
Adoro quando sou visitado por miúdos da escola que vêm apenas a passar e tiveram a “coragem” de abrir a porta e dar um salto cá dentro. Sucede muitas vezes que pessoas que nunca visitaram uma Galeria de Arte me perguntem à porta: “paga-se para ver a exposição?” ou mesmo “posso entrar?”. A frequência elevada destas ocorrências é sintomática da falta de hábitos de cultura dos nossos cidadãos. Mas são, ainda assim, momentos importantes porque me dão a oportunidade de dizer “Claro que pode entrar! A Galeria existe para que as pessoas venham, vejam e usufruam. Bem vindo!”

Tens trazido nomes incontornáveis da fotografia até nós, qual é a primeira reação dos teus convidados quando ouvem o nome Lisboa?
O nome “Lisboa” não é desconhecido para quase nenhum deles. Quase sem excepção, os artistas que exponho e represento são pessoas muito cultas e viajadas. Quase todos eles visitaram já Lisboa algumas vezes (enquanto turistas) e alguns têm até relações de proximidade emocional com o nosso país. Para os poucos que não conheçam Lisboa (como foi o caso recente de Arno Rafael Minkkinen) expôr por cá é a possibilidade de se apaixonarem por esta cidade e por este país maravilhoso.

Fotografia para ti é…
…o mistério do mundo. O segredo que se revela e esconde ao mesmo tempo.

O que mudarias na tua vida hoje, olhando para trás?
Ui… tanta coisa! A verdade é que não penso muito nisso. Penso, isso sim, em como posso mudar a minha vida futura agindo agora. E o que há a fazer é bastante simples: trabalhar mais, tolerar mais, amar mais; dar mais tempo às coisas e pessoas que importam e deixar de me preocupar tanto com o que não merece o meu esforço.

Para ti Lisboa é…
…casa. A casa onde se vive. A casa que se ama e odeia mas para onde sempre se volta.

Se fosses Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, qual a tua primeira medida?
Proibir (sob ameaça de coimas bastante pesadas) marquises e estores de plástico!

O que gostarias de ver em Lisboa na próxima semana, no próximo mês e no próximo ano?
Próxima semana – menos trânsito; próximo mês – uma boa e séria feira de arte contemporânea; próximo ano – mais investimento na cultura e no património.

Lisboa tem prazo de validade?
Todas as “coisas” têm prazo de validade. Nesse sentido Lisboa tem também um “prazo”. Apenas as ideias duram um pouco mais. E mesmo assim não me parece que durem para sempre. Mas não faz mal… é essa a Lei da Natureza.
A minha Lisboa não é eterna, e ainda bem – isso só a torna mais preciosa.

Qual é a primeira coisa em que pensas quando regressas a Lisboa?
Depende de onde regresso. Se regresso da Suiça penso “que cidade suja, que cidadãos pouco civilizados… pelo menos a temperatura é boa”. Se regresso da Índia penso “que limpeza, que civilidade ordeira… é pena estar um pouco de frio!” Estou a brincar, naturalmente. Mas estou a chamar a atenção para um facto importante: que a ideia de Lisboa (ou de qualquer outro sítio) é uma ideia sempre relativa. Que embora esta cidade seja para mim fabulosa, essa nem sempre é a imagem que Lisboa projecta. Temos de trabalhar cada dia para a tornar mais real e próxima da Lisboa que amamos, mas que pode não existir.

Desejo para 2016?
Continuar no meu caminho (que foi muito feliz em 2015) sem grandes sobressaltos.

Porque achas que foste escolhido para esta lista de 100 Lisboetas que todos devem conhecer?
Tenho-me questionado sobre isso mesmo. Não vejo nada de extraordinário na minha história. Mas na verdade, somos sempre os piores juízes de nós próprios.