100 Lisboetas que tens de conhecer!

Fotografia: Francisco Rivotti

Vou abrir-vos o apetite. Imaginem um espaço onde a carne é o ingrediente especial. Melhor, onde a carne é o ingrediente principal. Onde é tratada com toda a subtileza e de todas as formas possíveis e imaginárias. Onde, mais que um restaurante de carne excepcional, temos um laboratório de novos sabores. Ou imaginem ainda um espaço onde podem comer um delicioso ceviche, com a riqueza dos sabores peruanos e adaptado à cozinha portuguesa. Com fome?

Vou plantar-vos o sonho. Imaginem que largam tudo e partem numa viagem à volta do mundo, de mochila às costas, e prontos a sentarem-se à mesa de outras famílias, em família, ao longo de 54 semanas e 25 países. Uma viagem que vos leva a conhecer o mundo através dos seus sabores e através da união e cumplicidade que a partilha de uma refeição representa. Já sonham?

Vou adoçar-vos o coração. Imaginem que passam um ano em regime de voluntariado a ajudar comunidades e pessoas em dificuldade, que partilham as suas dificuldades enquanto lhes ensinam como as hão-de superar, que vão para Moçambique ou Angola ou São Tomé e Príncipe a pensar que vão ajudar pessoas a encontrarem-se e são vocês que se encontram? Com o coração apertado?

Há alguém nesta cidade que todos amamos que tem um apetite voraz, que sonhou e concretizou e que tem um coração de ouro. Ainda não sabem quem é? Fácil, é o…

#53 – Chef Kiko

Diz-me quem é o Chef Kiko visto de fora?
Diria que sou visto como uma pessoa simples, com garra. Um apaixonado por cozinha e pela ligação que esta cria entre as pessoas.

És alfacinha de berço, por devoção ou por convicção?
Por devoção, porque eu não nasci em Lisboa. Sou carioca de gema e não alfacinha de berço, mas considero-me um Lisboeta. Esta é a minha cidade, vivo no centro de Lisboa, gosto de acordar e ver o despertar da cidade, gosto de aproveitar tudo o que esta maravilhosa cidade tem para oferecer desde o rio Tejo ao Monsanto. Sou um completo apaixonado por esta cidade e pela sua cultura.

Porque achas que foste escolhido para esta lista de 100 Lisboetas que todos devem conhecer?
Não é uma pergunta fácil, mas creio que isso se deve à história que tenho vindo a construir, sobretudo desde que me casei e me encontrei. Ter ido para Moçambique fazer voluntariado, a viagem que fiz à volta do mundo e o rasto que tenho deixado na gastronomia lisboeta com os projectos que tenho desenvolvido na cidade, acredito que fazem de mim uma pessoa com histórias interessantes para contar e partilhar.

Que projetos tens em mãos?
Neste momento tenho projectos novos, mas prefiro não falar sobre eles, por agora. Não que eu ache que o segredo é a alma do negócio. Na verdade, acredito que a alma é que é o segredo do negócio.

Diz-nos, resumidamente, que aprendizagem recebeste com a tua viagem pelo Mundo?
A principal lição que retirei da minha viagem pelo Mundo foi o respeito. O respeito pelo diferente, compreender que não existe certo e errado, branco e preto, mas sim culturas e formas diferentes de ver o mundo. Perceber que aquilo que eu sei nem sempre é o certo é algo muito importante que aprendi nesta fase da minha vida. Aprendi também a respeitar muito quem menos tem e que, diariamente, transforma o pouco em muito. Todos temos problemas, mas não são comparáveis com muitas das realidades que encontrei e que me fizeram perceber o quão privilegiados somos por vivermos numa cidade segura, bonita, confortável, com sol e com uma dinâmica cultural muito grande. A maior parte de nós vive em casas boas, com todas as condições para ter uma vida confortável e tem 2, 3 refeições por dia. Temos que dar valor a isso e, por vezes, sinto que vivemos numa postura de exigência e não numa postura de agradecimento. Em suma, creio que deveríamos ser mais gratos em relação à vida que temos.

Temos um Talho e uma Cevicheria, que gastronomia de outro país gostarias de partilhar com os Lisboetas?
Todas as outras. A minha função enquanto Chef, cozinheiro e arquitecto de ideias passa por trazer novas ideias e novas culturas para partilhar com os portugueses.

Qual foi aquele prato que fizeste e que te revelou a paixão pela cozinha?
Todos os pratos revelam alguma paixão. Existem, naturalmente, pratos de que eu gosto mais, outros de que gosto menos, uns dos quais me farto mais ou menos. Um prato do qual acho que nunca me vou cansar é o Picadinho Brasileiro d’O Talho. Tem coração de galinha, carne de sol, salsicha fresca, banana e farofa. É um prato que nunca recuso e que me transporta às minhas origens brasileiras.

O que mudarias na tua vida hoje, olhando para trás?
Acho que não mudava nada. Não tenho arrependimentos. Se pudesse mudar o mundo ou tivesse, sobre ele, poder ilimitado talvez fizesse com que algumas pessoas que já morreram, voltassem. Mas isso é algo que ninguém controla.

Para ti Lisboa é…
…vida, luz e alma.

Se fosses Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, qual seria a tua primeira medida?
Se fosse Presidente da Câmara Municipal de Lisboa a minha primeira medida seria tornar a Avenida da Liberdade única e não tão igual a todas as outras Avenidas da Liberdade que existem por esse mundo fora, com as mesmas lojas e marcas. Gostaria de a tornar mais lisboeta e com uma vertente cultural mais forte.

O que gostarias de ver em Lisboa na próxima semana, no próximo mês e no próximo ano?
Mais pessoas a sorrir, todos os dias. Era o que me deixaria mais feliz.

Lisboa tem prazo de validade?
Acho que não. Lisboa enquanto destino turístico de eleição veio para ficar. Temos é de nos saber reinventar e manter actuais e relevantes, preservando sempre a nossa cultura.

Qual é a primeira coisa em que pensas quando regressas a Lisboa?
Não penso, sinto um conforto e paz enorme por estar nesta cidade.

Desejo para 2016?
Continuar com a mesma pica que me faz sair todos os dias da cama.

Sugere-nos outras pessoas dignas da referência “100 Lisboetas que tens de conhecer!
A minha mulher, Maria Bravo!