100 Lisboetas que tens de conhecer!

fotografia: João Catarino

#57 – Maurícia Neves

Aspirante a coreógrafa e performer, Maurícia Neves tem produzido as suas próprias criações de dança, performance, instalação, música e aventurou-se, também, na área dos figurinos e do design de iluminação nas próprias criações. Em 2009, ano em que se começou a dedicar mais afincadamente às performances, apresentou o primeiro trabalho com a duração de 3h30 em plena Rua do Carmo e nunca mais parou!

São trilogias, são performances de 5 horas, são apresentações em Lisboa, Portimão ou na Alemanha, são curta-metragens, são a dança… A Maurícia dança, porque a vontade de movimento, de cultura, de chegar ao outro, lhe corre nas veias. Fica a conhecê-la melhor!

Diz-me quem é a Maurícia vista de fora?
A Maurícia vista de fora é uma rapariguinha de 1,77m, em que 17cm são um pompom composto de cabelos aos caracóis que já baptizaram com o nome de Sérgio. Para além disso, a Maurícia vista de fora depende de quem a vê ou de quem ela é naquele momento. Temos a Maurícia artista (performer, Coreografa e Directora), a Maurícia produtora, a Maurícia figurinista ou designer de iluminação das suas próprias criações artísticas, a Maurícia que organiza concertos, a Maurícia filha, irmã, madrinha, prima que ainda não é avó… e acho que me esqueci de algumas! Existem uma quantidade enorme de Maurícias que é difícil arranjar tempo para todas.

És alfacinha de berço, por devoção ou por convicção?
Sou alfacinha quase de berço porque me sinto embalada por esta cidade. Conheci Lisboa em 1998 quando fui com os meus pais, avó e irmã à EXPO e lembro-me de ficar imediatamente apaixonada. Quando terminei o 12º ano, em Portimão, iniciei logo a procura de casa na capital, depois de encontrar tornei-me filha adotiva. Já lá vão quase 10 anos! Portanto sou alfacinha por devoção, e talvez, até por convicção!

Que projectos tens em mãos?
Neste momento dedico-me à produção das minhas criações artísticas (podem ver os teasers no meu canal do vimeo), à criação de duas novas peças e de uma trilogia de vídeo-dança – “INTERFERÊNCIA”. Estou a planear workshops que quero começar a leccionar esporadicamente no Algarve, mais especificamente em Portimão, e se possível também em Lisboa e outros sítios que demonstrem interesse. Por fim, dedico-me à curadoria de espaços não convencionais em Lisboa.

O que é que te levou à Dança?
A vontade incontrolável de ser mais ágil! E não só…! Aos 18 anos, entrei no Chapitô, tive de fazer 3 vezes a prova até ter entrada na EPAOE (Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo), uma história que se repetiu quando concorri à Escola Superior de Dança. Mas voltando atrás, quando entrei no Chapitô ao mesmo tempo fazia um curso de teatro, portanto, formação em Teatro, Circo e Canto já estava garantida. Mais tarde, quando saí do Chapitô fiz um gap year, tive um ano só a fazer audições e workshops. Percebi que a minha maior lacuna seria a expressão corporal e, se há coisa que sou é lutadora, então concorri à ESD, mesmo sem ter “grande” formação em dança contemporânea e muito menos em dança clássica e pronto, à terceira foi de vez. Depois de entrar “no mundo da dança” nunca mais consegui, nem quis, sair.

Como vês os bailarinos em Portugal? E como sentes que Portugal vê os bailarinos?
Vejo os bailarinos em Portugal à procura… Muitos deles encaminhados, outros perdidos. Outros a trabalharem por reconhecimento. Sinto que Portugal não vê, Portugal está cego!

Pode-se viver de Dança em Portugal?
Sim, mas abdicando de tantas coisas que parece por vezes impensável. E tendo ajuda da família e amigos é mais possível. Viver da arte em Portugal tem épocas e, normalmente, as épocas positivas não vêm ao mesmo tempo para todos, até porque não há emprego para tantos. A minha estratégia quando não tenho emprego é gerar emprego. Não consigo estar parada, é um “problema” de corpo e de alma.

Em que palco e com quem gostarias muito de dançar um dia?
Penso que não tenho alguém com quem gostasse muito muito de dançar. Pelo menos não me lembro agora! Um palco… também não tenho nenhum palco em especifico, mas tenho um desejo muito forte de internacionalizar as minhas peças. Gostava muito de levá-las para outros palcos fora de Portugal, recebendo assim um feedback de outras culturas Europeias. Depois da Europa, gostava de levá-las para o Brasil que é grande o suficiente para demorar anos a explorá-lo.

Para ti Lisboa é…
…diversidade!

Se fosses Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, qual a tua primeira medida?
Se fosse, a minha primeira medida seria demitir-me imediatamente! [riso maléfico] Estou a brincar… Realmente não saberia por onde começar, mas talvez puxasse a “brasa à minha sardinha” e via quantos mil tostões conseguia pôr na cultura, pois acho, aliás tenho quase a certeza, que o problema “disto tudo”, do mundo em geral, é a falta de sensibilidade, de escuta e de compreensão e “isto tudo” são coisas que são trabalhadas e estimuladas através da arte.

O que gostarias de ver em Lisboa na próxima semana, no próximo mês e no próximo ano?
Na próxima semana: um espectáculo da Meredith Monk. No próximo mês: todos os espectáculos inseridos no Festival Alkantara (uma hipótese bem provável de ser totalmente realizada!). No próximo ano: Romeo Castlelucci, como perdi este ano, gostava de ter outra oportunidade!

Lisboa tem prazo de validade?
Se continuar à venda irá ter. Lisboa está a ser tomada pela construção de Hotéis, o que não tem mal nenhum quando essas construções não destroem os locais já existentes que dedicam a sua programação à cultura. São principalmente esses espaços que fazem Lisboa um local incrível, para além dos seus belos monumentos, claro!

Qual é a primeira coisa em que pensas quando regressas a Lisboa?
Como é bela, como tem um ritmo característico e quais as mil coisas que vou já começar a fazer, ver e organizar!

Desejo para 2016?
O inalcançável, que toda a humanidade possa viver daquilo que a faz mais feliz. O alcançável, e mais egocêntrico, que possa viver daquilo que mais me faz feliz.

Sugere-nos outras pessoas dignas da referência “100 Lisboetas que tens de conhecer!”.
Ora bem, pergunta difícil porque gostaria de referir metade dos meus amigos e das pessoas com quem trabalho, mas tenho um amigo: o Yuri Wentink que tanto ele como eu achamos que deveria de ser um dos 100 Lisboetas a conhecer, talvez porque conhece tão bem Lisboa e as suas histórias que seja merecedor (como tal “titulo” fosse um prémio). O resto deixo em segredo para descobrirem! Depois disto, ele está a dever-me umas férias numa cidade Europeia qualquer, num hotel lindíssimo em regime tudo incluído.