Alice Rohrwacher

Estivemos orgulhosamente presentes na 8 1/2 Festa do Cinema Italino que termina hoje. Durante estes dias pudemos falar com Alice Rohrwacher sobre o seu mais recente file “O País das Maravilhas” que ainda ne semana passada aconselhámos a ver.

Estás em Lisboa para apresentar o teu mais recente filme “O País das Maravilhas”.  É a tua 2ª longa-metragem de ficção e teve honras de abertura da 8ª edição da Festa do Cinema Italiano, que retrata este filme?
É um filme sobre uma família que mora no campo, que vive da produção do mel. O pai é um apicultor e este trabalho envolve toda a família. Conta o que acontece durante um Verão, onde sucedem coisas extraordinárias. Por um lado temos a rodagem dum programa televisivo numa ilha etrusca e que chega à aldeia com o objetivo de selecionar a família mais tradicional e por outro há a chegada dum rapaz alemão, que está inserido numa programa de reeducação e que se vai juntar a esta família.
Esta família atípica é composta por vários membros, onde se destaca a Gelsomina, uma jovem adolescente mas que é no fundo a responsável pela família e em oposição vemos um pai alemão chamado Wolfgang, que é autoritário, resmungão, castrador. Que papel tem nesta família?
É um pai que parece autoritário mas no fundo não passa duma criança que tem medo que as suas filhas saiam de casa e o abandonem. Ele está convencido que o mundo está perigoso e que é preciso a todo o custo proteger a sua família do mundo exterior. Mas este autoritarismo é algo irracional, como se fosse um animal, tem momentos de fúria, outros de ciúme mas no fundo é um homem bom.

O filme começa como uma espécie de documentário sobre uma família no campo, o que é realidade e o que é fantasia?
No filme é tudo fantasia, foi tudo inventado. Não há nada que não tenha sido escolhido, reconstruído, imaginado.

Não tem por isso um carácter autobiográfico ou surgem algumas memórias da tua infância na Toscana?
Sim, o filme é rodado na minha região, na região onde eu cresci. Há uma memória mas não é documental, é sim uma memória comunitária, não é a minha.

Depois de ver o filme fiquei com a impressão que aquela família já não estava viva, que eram apenas fantasmas a assombrar um determinado lugar, faz algum sentido?
Faz sentido, o filme começa na escuridão, é uma luz que faz despertar estas pessoas, não sabemos se estão vivas. Essa luz é a luz do cinema que faz com que essa família volte a passar outro Verão e no fim desaparecem.

E aqueles homens, aqueles caçadores que surgem no início do filme, que parecem extraterrestes a descobrir um espaço desconhecido…
Para mim os caçadores somos nós, há muitas pessoas que fazem filmes para salvar o mundo, sempre com boas intenções mas no fundo somos caçadores. Queremos saber tudo sobre as personagens, como se comportam quando estão na casa de banho, queremos saber como fazem amor, queremos saber tudo. É a luz dos caçadores que faz começar o filme, que dá vida a estas personagens como disse antes. Mas existe também uma autocrítica, quando um dos caçadores diz: “Olha aquela casa” e o outro responde: “Aquela casa sempre ali esteve”. Não estamos a descobrir nada, é como se fosse um círculo, voltamos sempre ao ponto de partida.

Ao apresentares o teu filme na sessão de abertura utilizaste uma analogia muito interessante entre as abelhas e os filmes, podes aprofundar a tua opinião?
O apicultor trabalha com um animal que não pode ser preso, é um animal livre, é um animal selvagem. O apicultor edifica todo o seu trabalho, todo o seu poder sobre algo que não existe, algo que não lhe pertence. Normalmente as abelhas não vão embora mas podem ir. Outro aspecto é o facto de não haver troca, não é possível agradecer às abelhas. É a mesma sensação que tens quando vês um bom filme, o filme é independente, é como uma abelha, é livre. O realizador é como um apicultor, diz que tem muitas coisas mas afinal não tem nada.

E falando da protagonista desta estória, Gelsomina, quem é ela e que papel tem?
É uma pequena mulher que tem muita responsabilidade mas que ainda não consegue transmitir o sentimento de ternura em relação aos pais, tendo vontade de ir-se embora e conhecer o mundo exterior.

Revês-te nesta personagem?
Não muito, revejo-me mais neste pai. Às vezes tenho a sensação que sou muito parecida com o pai.

Todo o ambiente em redor da rodagem do programa televisivo tem um lado carnavalesco com um aparato artifical e até artificioso que faz lembrar os filmes de Fellini. É uma das tuas referências como realizadora?
Não é uma referência directa, para nós Fellini é a memória, não é uma memória cinematográfica. Faz parte da nossa memória, assim como faz o pintor italiano Piero Della Francesca. Não é algo cinéfilo, é algo cultural. Há no entanto uma referência directa, no nome da protagonista, quis dar um sinal de que estes pais, que trabalham no campo e que pouco sabemos do seu passado, gostavam de ver filmes. Daí o nome Gelsomina, nome da personagem interpretada por Giulietta Masina no filme “La Strada”, de Fellini.

Já há algum tempo que não víamos “o campo”, a ruralidade, serem alvos do interesse dum realizador, pelo menos de uma forma tão expressiva e palpável, porque é que não é retratado mais vezes?
Acho que o campo está muito idealizado. Há realizadores que contam só as coisas positivas do campo e outros que só realçam os aspectos negativos. Já não faz tanto parte da nossa cultura como era antes. Para mim é importante mostrar que nos últimos vinte anos no meu país não existiu uma política de proteção da agricultura para além do turismo.

Podemos dizer que estamos perante o surgir de uma nova cinematografia italiana, graças aos jovens realizadores que abordam temas actuais mas também da memória coletiva italiana?
Sim, há uma boa safra de novos cineastas, que têm vontade de fazer bons filmes, de explorar novos territórios mas sem esquecer o passado.

Viveste em Lisboa como aluna do programa Erasmus, como foi essa experiência?
Sim, fiz Erasmus mas depois também estudei na escola da Videoteca Municipal de Lisboa e trabalhei com a Luciana Fina, enquanto assistente de montagem. Para mim foi muito importante porque não estudei cinema na universidade, aprendi muito com esta documentarista italiana. Em Portugal descobri sem dúvida o contacto com o cinema.

A tua passagem por Lisboa marcou a tua forma de filmar?
Sim, foi o início, foi muito importante. Nos meus filmes está muito presente a relação sombra/luz, algo que é muito português.

Que conselhos é que davas aos jovens realizadores portugueses que estão agora a dar os primeiros passos na sétima arte?
Façam filmes que eles gostem e não filmes que os outros gostem.

Para finalizar, que projectos tens para o futuro?
Estou a escrever para outro filme e quero fazer muitos mais filmes.

Tens planos de filmar em Lisboa brevemente?
Agora quero trabalhar em Itália, depois vamos ver. Gostaria muito de o fazer.