André Barros

André Barros estudava Direito e, no último ano começou, de forma autodidacta, a tocar piano. Depois de acabar o curso, resolveu apostar num novo rumo de ensino, a produção musical que o levou a rumar à Islândia para trabalhar alguns meses no Sundlaugin Studio (o tal estúdio que os Sigur Rós construíram nas instalações de uma antiga piscina). Foi lá que privou com nomes como Olafur Arnalds e elementos de Múm, Amiina e Of Monsters & Men e o seu disco de estreia “Circustances” foi mesmo lá finalizado (mistura e masterização).

Entre o universo contemporâneo, o clássico e o de bandas sonoras compôs e interpretou música para cerca de dez filmes e uma coreografia de dança, colaborando com realizadores de países como Estados Unidos, Japão, Índia, Alemanha, Islândia e Espanha.

O novo disco “Soundtracks Vol.I” apresenta algumas das suas composições que gravou em 2014 para diversas bandas sonoras e ainda o tema “Gambiarras” que conta com a colaboração (texto e voz) de Valter Hugo Mãe. É por lá que encontramos também os temas do filme curta metragem “Our Father”, de Linda Palmer (que tem Michael Gross – o pai de “Michael J Fox” em “Quem sai aos seus” – no papel principal), que já lhe renderam um galardão para melhor banda sonora no Los Angeles Independent Film Festival Awards.

Diz-nos a verdade, o Direito era demasiado aborrecido e por isso decidiste trocar a Lei pela Música?
Sem dúvida! Podia ser politicamente correcto e dizer que a música falou mais alto, mas a verdade é que o Direito tem realmente o seu lado entediante! Falando mais a sério, sinto que posso ter um impacto mais forte e, de certa forma, espiritual em quem ouve o meu trabalho do que aquele que alguma vez teria exercendo advocacia e isso deu-me e dá-me ânimo para enfrentar as dificuldades de uma indústria tão instável como a da música.

Achas que as duas são incompatíveis ou há uma complementaridade? Vamos poder ver advogados a alegar ao som da tua música?
É engraçada a pergunta, porque brinco com isso muitas vezes…em conversas com amigos falamos do quão interessante poderia ser enternecer um juiz com música a ser tocada em plena audiência!
Eu acho que o Direito tem o seu lugar na música, embora não de uma perspectiva criativa ou de todo estimulante, mas sim por ser parte fundamental de todas as contratualizações que se celebram entre músicos, editoras, promotores de concertos e as salas de espectáculo, entre tantas outras coisas. Aliás, o Direito e as normas são absolutamente transversais a qualquer área de actuação na sociedade em que vivemos.

Conta-nos como é trabalhar no mítico Sundlaugin Studio? Tiveste vontade de dar um mergulho?
Não só dei um mergulho como estive absolutamente submerso durante os 3 meses em que lá estive! Conviver e trabalhar com profissionais com a experiência daqueles com quem tive o privilégio de me cruzar é não apenas uma fonte inesgotável de aprendizagem como também um autêntico suplemento motivacional para o meu futuro enquanto compositor e músico. Do ponto de vista meramente funcional do estágio, o que fiz foi executar a função de técnico de assistente de som, montando sessões de gravação, auxiliando os músicos no que fosse necessário, operando a mesa de gravação e, ainda de que uma forma muito primária, auxiliar o técnico de som residente em algumas misturas.

E conhecer o Ólafur Arnalds, foi um sonho tornado realidade?
Agora que olho para trás e para esse privilégio que tive pois, de facto, admiro imenso o seu trabalho e conseguir ter trocado algumas impressões com ele foi fabuloso, posso vê-lo como um sonho tornado realidade, ainda assim julgo que naquele momento não o senti dessa forma pois o encontro foi fruto do acaso e não premeditado, pelo que o encarei de forma absolutamente natural, sem criar quaisquer expectativas.

Realizadores à parte, qual o filme para o qual gostaste mais de compor uma banda sonora?
Se tivesse de escolher apenas um dos projectos em que estive envolvido, acho que optaria por eleger a curta-metragem de ficção ”Our Father”, da realizadora norte-americana Linda Palmer, pela simples razão de que nela participaram actores que me habituei a ver na televisão ainda jovem e, sinceramente, não pensei consegui-lo tendo ainda uma tão curta carreira!

Qual a sensação de receber um prémio no Los Angeles Independent Film Festival Awards? Tinhas as mãos a suar e deixaste cair o galardão?
O prémio que recebi foi precisamente a propósito desta banda sonora que falei  (”Our Father”) e ter tido este reconhecimento numa fase tão inicial do meu percurso enquanto compositor foi absolutamente incrível e serve sobretudo como um enorme estímulo para continuar a trabalhar! Só não o deixei cair porque apenas me foi entregue por correio uns dias depois, infelizmente não tive a oportunidade de ter estado presente na cerimónia!