100 Lisboetas que tens de conhecer!

#42 – Ângela Rodrigues

Ângela Rodrigues é uma cidadã do mundo. Passou a infância no Rio de Janeiro, viveu um ano inteiro em África, viajou pela Índia (uma viagem que a marcou profundamente), estudou Mixed Media na School of Visual Arts em Nova Iorque, mas é Lisboa que é a sua casa e é de Lisboa que quer cuidar!

Mestrada em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa, Ângela faz parte da equipa Placemakers, onde actualmente desenvolve projetos na área da cultura, património, turismo e lazer. Em paralelo, formaliza a ARA Office (Ângela Rodrigues Arquitectura), com escritório próprio no coração de Lisboa.

Uma mulher de garra, com uma visão muito bem definida do que Lisboa precisa a nível de desenvolvimento arquitectónico e que luta por isso! Fica a conhecer a Lisboeta desta semana!

Diz-me quem é a Ângela vista de fora?
Acelerada por fora. Ritmada, com tempo, por dentro. Entusiasta, free thinker.

És alfacinha de berço, por devoção ou por convicção?
Por paixão. O meu Pai era alfacinha de berço e foi através dele que herdei esta paixão pela cidade.

Que projectos tens em mãos?
Na área da Arquitectura, um projecto de remodelação de um escritório no Edifício Imaviz, a reabilitação de um apartamento em Santa Catarina e o projecto de uma casa de férias a Sul de Lisboa, entre o Carvalhal e Melides. Também o meu escritório, ARA Office, numa nova morada e identidade desde Janeiro. Paralelamente, faço parte da Placemakers.pt onde estou envolvida em dois projectos super desafiantes: a ampliação do Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, e o desenvolvimento de conteúdos para um Story Centre, no Norte.

Lisboa está no ponto crucial de um reordenamento sócio-urbano, o que é primordial para que a cidade não perca o seu carácter?
Que não se percam as pessoas. É no gene da nossa identidade que está o carácter da cidade. É primordial que existam estudos e envolvimento dos moradores. Que sejam ouvidos e que a alma de cada bairro seja preservada. Que não se percam os edifícios históricos, por exemplo: mesmo em frente do meu escritório, o Conservatório de Música, que está em tão mau estado. E com esta ideia de reordenamento, que não haja tanta resistência em construir em altura desde que se resolvam problemas urbanos, como o edifício de 17 pisos na Av. Fontes Pereira de Melo, um projecto que está em perfeita sintonia com os edifícios existentes e que foi bastante criticado. Protesto antes contra uma escultura/pilar em forma de uma enorme mão a agarrar um canto de uma fachada de um hotel, na Praça do Saldanha. É com exemplos desses, de mãos a segurar edifícios, que a cidade perde o seu carácter.

Muitos dos nossos jovens arquitectos vêm apenas futuro na sua profissão lá fora. O que achas que Portugal deve fazer para os manter aqui?
Há uns anos a construção parou e muitos ateliers fecharam ou despediram em massa. Éramos muitos arquitectos e pouco trabalho. Mas sinto que o pior já passou. Em Portugal existe a (terrível) ideia de que o arquitecto é uma espécie de artista (mau artista) que não tem que ser pago pelas ideias que tem, nem tão pouco valorizado pela quantidade de horas que trabalha. Para os manter? (e hoje já não se licenciam tantos arquitectos como há uns anos, logo será mais fácil mantê-los): estágios remunerados, contratos de trabalho e a ideia de progressão, crescimento dentro dos ateliers. Claro que para que isso aconteça é preciso projectos. Clientes que entendam a mais valia do arquitecto, determinante a nível da qualidade de vida e não só. E que as obras emblemáticas, que podem ser museus ou outros equipamentos públicos ou privados, recorram a arquitectos nacionais.

Como achas que vai ser o desenvolvimento arquitectónico de Lisboa?
Idealmente teria que começar pela reabilitação de centenas de edifícios abandonados, em ruínas ou em muito mau estado. Cuidar do património existente. E continuar a posicionar a cidade virada para o Tejo. Não esquecendo a margem Sul, que tem tanto potencial e que pode dialogar com Lisboa. Acho que o desenvolvimento irá focar bairros históricos ou problemáticos, como foi o caso daquele troço a meio da Almirante Reis, com mais equipamento cultural e espaço público cuidado. Ou agora o bairro da Marvila, que começa a ser redescoberto, e bem.

Qual foi a pior ideia que tiveste até hoje?
Uma das coisas que aprendi quando passei pela publicidade, como copy, no final do séc. XX (época gold que marcou uma geração de criativos que ainda hoje admiro), foi que temos que mandar “cá para fora” todas as ideias, começando por aquelas mesmo más, para que as boas possam depois crescer. A pior ideia que tive foi pensar que só tinha boas ideias. E que já sabia tudo.

O que mudarias na tua vida hoje, olhando para trás?
Teria comprado a minha vespa mais cedo!

Para ti Lisboa é…
…a minha cidade branca, como no filme de Alain Tanner.

Se fosses Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, qual a tua primeira medida?
Desmurar alguns jardins. Tirar todos os gradeamentos à volta das zonas de relva. Redesenhar o parque Eduardo VII, para que seja usado e não contemplado. Para que se torne apetecível (que esta ideia se torne num Manifesto, mais alguém?).

O que gostarias de ver em Lisboa na próxima semana, no próximo mês e no próximo ano?
Na próxima semana: bancos e mesinhas, lugares sentados na Praça do Comércio e em alguns jardins. No próximo mês: as lojas tradicionais de bairro a permanecerem abertas e com gente. No próximo ano: o roteiro de boas exposições internacionais a pararem em Lisboa (como a antiga programação do CCB).

Lisboa tem prazo de validade?
Fascina-me essa ideia do fim.

Qual é a primeira coisa em que pensas quando regressas a Lisboa?
Da primeira vez que passei muito tempo fora aterrei em Lisboa e fui directa ao Castelo de São Jorge. Como se pudesse respirar a cidade, abraça-la de uma só vez.
E talvez num bom prato de bacalhau. Casa.

Desejo para 2016?
Para mim? Projectos estimulantes, vinho e poesia.
Para a cidade? Que se saiba renovar sem se deslumbrar com o boom do turismo. Que aprenda com os exemplos (bons e maus) de outras cidades da Europa, como Barcelona dos anos 1990.

Porque achas que foste escolhida para esta lista de 100 Lisboetas que todos devem conhecer?
Talvez por não desistir da minha profissão, por aguentar e acreditar que é possível ser-se mulher, arquitecta, com trabalho desafiante, apesar da conjuntura. Por fazer parte da Placemakers.pt que agora tem em mãos este (enorme) desafio da ampliação do Portugal dos Pequenitos.

Sugere-nos outras pessoas dignas da referência “100 Lisboetas que tens de conhecer!”.
A Joana Esparteiro, por ter lançado um projecto com alma totalmente lisboeta chamado Fado Fora de Portas.