Balla

Armando Teixeira é um homem cheio de paixão e de coragem para colocar em execução tudo aquilo que desenha na sua mente. Reflexo disso são os inúmeros projetos, nos mais diversos campos, com que já nos brindou ao longo dos últimos 20 anos. Não demos pelo tempo passar e a verdade é que sorver de toda a sua criação faz-nos querer mais e esperar o inesperado. Além disso, faz-nos acreditar que, com o mesmo nível de dedicação e trabalho árduo, também nós poderemos concretizar os nosso sonhos.

Este mês apresentou-nos o novo álbum de Balla, “Arqueologia”, um objeto artístico na sonoridade e no design! Estivemos no concerto de estreia em Lisboa e fomos falar com ele, inspira-te! E fica com a certeza que nos próximos 20 anos muito mais irá acontecer, porque Armando transmite a energia do descobrir, do caminho aberto, tudo com um toque de humildade incrível!

20 anos de carreira, como é que olhas para esse caminho?
Não gosto muito de pensar no passado e ainda é muito cedo para balanços. Espero continuar por mais vinte anos.

Numa época em que quase tudo é lançado no mundo virtual, tu lanças um álbum/livro de 68 páginas, bem real. Porque achas que o risco compensará?
Acho que a reação que este disco está a ter já compensou o risco. Adoro o trabalho que o Paulo Brás e a Cristiana Couceiro (ilustradores, designers) fizeram. Tenho a certeza de que este disco ficará como exemplo, talvez até inspire novas edições. Até a música ganhou, todo este investimento também me obrigou a ser mais cuidadoso e não me permiti nenhum pormenor menos cuidado. O risco também não é todo meu, tenho muito que agradecer ao Carlos Lopes e à editora Edimusic que apostaram na edição deste disco com todo o investimento inerente.

O “Arqueologia” é um objeto que nos fala de memórias, não só nas letras, mas nos autocolantes que vêm com o álbum e no uso de sintetizadores analógicos. Mas, também nos fala de futuro, quando descobrimos os QR-Codes. O que é que te levou a criar esta mistura entre memória e futuro?
A “Arqueologia” que quis mostrar neste disco não é saudosista. Para mim o arqueólogo é um intérprete que desvenda os sinais do passado à sua maneira, muitas vezes criando um passado romanceado que não corresponde ao que de facto se passou. As letras não falam de memórias falam da existência ou não de sinais do passado. Quanto aos instrumentos, vivemos uma época de recriação (verdadeiramente arqueológica) em que os novos sintetizadores são recriações de originais com 30 ou 40 anos. A grande diferença é que as novas versões soam muito pior. Ao longo da minha carreira fui tendo acesso aos sintetizadores originais e o fascínio pelo seu som e interactividade é infinito. Esse fascínio e o quase repúdio pelas novas versões, levaram-me a recuperar os métodos de programação usados nos finais de 1970, embora muito mais morosos também são mais gratificantes. Os QR-Codes são a maneira que encontrámos para prolongar este disco no tempo. Através deles, tem-se acesso a músicas que não ficaram no disco, novas versões, instrumentais, vídeos, fotos, etc..

Buchla Music Easel – como é que este objeto transformou a tua sonoridade? Trata-se de um claro caso de amor?
Espero que não seja um amor sazonal, se não se tornar demasiado utilizado não será com certeza. O Easel é uma recriação de um original de 1974 (se é uma recriação boa ou má nunca saberei pois só existem meia dúzia de originais) que tornou possível ao músico comum ter acesso a um Buchla, ao seu som e filosofia de funcionamento. O maior fascínio deste instrumento, além do som que é incrível, é ter uma arquitetura tão diferente dos outros sintetizadores. Os Buchla foram e são muito utilizados por músicos/compositores de música electrónica minimalista com Morton Subotnick. Essa sonoridade fascina-me, mas não me satisfaz só por si. Gosto mesmo é de canções. Quis trazer a sonoridade do Buchla e da música concreta ao universo das canções. Acreditem, não é uma junção nada habitual.

Tal como em álbuns anteriores, trabalhas em colaboração com outros artistas, tanto a nível musical, como a nível visual (ilustrações e vídeo). Fala-nos um pouco dessas escolhas e de como todos esses mundos se conjugam.
Neste disco participaram músicos de várias áreas que trouxeram outra cor à minha música. O Rodrigo Amado, saxofonista de jazz, um dos melhores e mais interessantes músicos portugueses. O Miguel L. Pereira contrabaixista clássico, que me acompanha desde o meu primeiro disco de Balla. E três cantoras orientais: Chu Makino (Japão), Toi (Filipinas) e Candy Whu (Hong Kong). Tenho um grande fascínio pelo oriente e foi enorme a generosidade destas três cantoras. E os músicos que tocam comigo nos Balla: Pedro Monteiro, Miguel Cervini, Duarte Cabaça, Bruno Cruz e João Tiago. Além dos músicos participaram o artista plástico Paulo R. Brás, a designer Cristiana Couceiro na concepção do livro e o realizador Fabrice Pinto (aka Chtcheglov), que realizou em parceria com o Paulo Bráz o vídeo do “Submundo” e está a ultimar o vídeo do “Contra a Parede”. A visão destes artistas e a junção dos nossos mundos é que faz com que tudo faça sentido. A imagem que dão à minha música, seja estática ou com movimento, é que a eleva a um nível que nunca imaginei.

Tens saudades dos palcos? Já há concertos previstos?
Muitas! Depois do concerto de lançamento ainda mais. As músicas do novo disco funcionaram tão bem em concerto. Ficámos cheios de vontade de tocar. Contamos iniciar a digressão deste disco para o próximo ano.

Habituaste o teu público a ver-te em várias frentes. Há por aí outros projetos a fervilhar?
Claro que sim! Mas depois de tanto tempo no “Arqueologia” tenho que esperar um pouco e digerir tudo isto. Acho que vai ser rápido, já estou cheio de vontade de fazer coisas novas. Paralelamente tenho um compromisso que é criar músicas novas para alimentar os QR-codes do “Arqueologia”, mas já estou habituado a fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

Para terminar, como vês o burburinho internacional gerado à volta de Lisboa?
Acho óptimo! Sempre achei que seria uma questão de tempo até os estrangeiros descobrirem Lisboa. Só espero que os bairros de Lisboa mantenham os habitantes locais.