De 5 a 11 de Maio

Capa de Nicolae Negura.
Lê a entrevista

Vamos sempre a caminho de qualquer coisa. Ou melhor: é bom que vamos. Quem não vai não é porque fique (porque ficar é caminhar no mesmo sítio); quem não vai a caminho de nada é porque não tem quem o receba.

Nascemos, abrimos os pulmões, envolvem-nos numa manta, choramos e entregam-nos a caminho dos braços da nossa mãe: o nosso primeiro caminho, o primeiro caminho que sabe a amêndoas no verão e nós (ainda) nem sabemos. Nesse caminho vamos crescendo, ficamos de pé, já andamos, já corremos, brincamos tanto e, de repente, aí vamos: mochila às costas e cheios de medo, agora a caminho da escola.

O segundo caminho consolida feitios, traz-nos as primeiras mãos dadas, as macacas, a tabuada, as letras juntas que formam palavras, que formam histórias, que formam o saber. Aprendemos tanto, mas sabemos tão pouco na escola. Só que da faculdade ao trabalho passam-se anos turvos e daqui em frente o caminho faz-se mais depressa. Vamos sempre a correr a caminho do escritório, a caminho de casa, de um jantar, de um casamento, a caminho de um almoço de família, a caminho do metro, de uma viagem, de uma reunião.

Lisboa ainda vai a caminho de qualquer coisa, tem quem a receba. Não sabemos como vai, nem para onde. Não sabemos se está a caminho pelo caminho certo. Talvez não esteja. Talvez Lisboa esteja a viver os anos turvos da faculdade, talvez caminhe inebriada pela atenção e incapaz de fazer o quatro. Talvez, Lisboa é humana. Mas o verão aí se acerca, trazendo o cheiro de amêndoas que sabem a braços de mãe. E nós, lisboetas, temos que ter sempre o regaço pronto para receber Lisboa ao colo.

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