Ezequiel Santos | Festival Cumplicidades

Ezequiel Santos é psicólogo e docente do Ensino Superior. Concluiu o Curso de Monitores de Dança para a Comunidade do Fórum Dança, em 1993, desenvolvendo desde então a sua actividade como pedagogo nas áreas da Psicologia e Comunicação e, ainda, como crítico de dança.

Foi intérprete dos coreógrafos Madalena Victorino, Rui Nunes e Francisco Camacho até 1996, apresentando-se em várias cidades europeias. Entre 1996 e 2006 trabalhou no Fórum Dança como director do Núcleo de Apoio Coreográfico. Lecciona regularmente as disciplinas de “História da Dança” e “Teoria da Dança” e tem apresentado várias comunicações sobre dança na Europa e no Brasil.

É também ele o responsável pelo programa do Festival Cumplicidades que acontece de 4 a 19 de Março em vários locais da cidade de Lisboa.

Antes de mais, digam lá quem são os vossos principais Cúmplices para levar este festival avante?
A lista de cúmplices é extensa: equipa de organização, técnicos, os artistas e oradores participantes no festival, todos os parceiros e organismos institucionais que nos apoiaram e, claro, o público que acredita neste projecto e que nos visitará.

Porquê a escolha da área do Mediterrâneo (Marrocos, Egipto, Líbano, Turquia) para esta 1ª edição?
A palavra-chave desta edição é “processos”: variedade de processos de criação e de construção de redes de profissionais em dança contemporânea, sendo que é na área do Mediterrâneo que a EIRA procura actualmente desenvolver projectos em networking.

A dança contemporânea, e não só, em Portugal tem cada vez mais qualidade porque só os bons subsistem ou está cada vez mais pobre porque os melhores “fugiram” do país?
Ao longo da história da dança houve sempre muita circulação de bailarinos e coreógrafos entre países, e em cada era histórica encontramos bons e maus profissionais independentemente da sua naturalidade. Simultâneamente, a perspectiva evolucionista que advoga uma selecção entre os melhores tendendo para uma progressão não é ajustável ao campo artístico. É verdade que em Portugal o ensino na dança melhorou bastante nos últimos vinte anos e isso produziu intérpretes e coreógrafos melhor capacitados e informados, alguns com fortes ligações ao exterior. Contudo, as condições de apoio à criação continuam a ser muito deficientes, parece-me que as pessoas criam constantemente uma falsa impressão de circulação e de boa visibilidade artística nas redes sociais da internet quando a realidade no terreno é deprimente.

Dados todos os constrangimentos financeiros do país que inevitavelmente se repercutem nesta área, aplica-se aqui o lema “Dançar para esquecer”?
Prefiro antes “Dançar para lembrar e celebrar”. A arte da dança permite-nos a sintonia com a eternidade de cada momento, relembrando que a vida é um arco entre o nascimento e a morte.

Achas que os programas de talentos da dança em Portugal ajudaram de alguma forma a dar uma nova visibilidade a esta área?
Sim, são programas em que a dança tem tido o seu espaço de notoriedade e isso permite informar o público e atrair candidatos a bailarino. Também foi assim na minha geração com a série “fame” nos anos ’80. Contudo esses programas de entretenimento também disseminam algumas ideias antiquadas: a de que um intérprete deverá dominar todos os estilos em dança e de que a coreografia se inspira na música e tem necessariamente de contar uma narrativa

Mesmo que tenhamos pés de chumbo, vale a pena ir ao Cumplicidades porque…
…podemos assistir a espectáculos empolgantes, encontrar pessoas inspiradoras e, só usaremos os pézinhos se quisermos quando marcarmos presença nas festas de inauguração e de encerramento.