Fernando Galrito | Monstra

Fernando Galrito ​​é um nome que dispensa apresentações mas, ainda assim, arriscamos dizer que é licenciado em Cinema, Animação e Teatro, pós-graduado em Antropologia e Mestre em Cultura e Tecnologias. Ensina Animação e Imagem na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, onde desenvolve metodologias pedagógicas na relação entre movimento de imagem, desempenho e artes plásticas. Coordena o Centro de Imagem em Movimento da Fundação Gulbenkian e é autor e colaborador em muitos projetos criativos e de pesquisa da arte transdisciplinares.

É, desde 2000, o diretor artístico do Festival de Animação de Lisboa | MONSTRA e, por isso, a pessoa responsável por nos ajudar a relembrar a criança que todos temos dentro de nós!

Qual a sensação de conseguir chegar à 15ª edição de um festival de animação em Portugal?
​É uma sensação boa, saber que o nosso trabalho e da equipa MONSTRA tem valido a pena. Esta satisfação é importante também porque não chegamos apenas às 15 edições. Chegamos aqui num crescimento constante, crescente e sustentado. Consolidamos a nossa programação, qualidade e mantemos anualmente um vanguardismo, inovando a cada edição, com propostas de programação e ampliando diálogos criativos entre artes e artistas. Ampliamos a nossa presença em Lisboa e no mundo.
Em 2016 estamos em 32 salas, 61 escolas e 12 universidades. Vamos levar a MONSTRA e a MONSTRINHA competitiva a 11 cidades de Portugal e a mais duas dezenas nos cinco continentes. De Timor a Brasília, de Arras a Buenos Aires, de Berlim a São Paulo, de Maputo a Viena. Realizámos a 5ª edição da MONSTRA em França. De 300 espectadores em 2012, ultrapassámos os 5.500 em 2015. Em 2000 iniciámos a MONSTRA em Lisboa com 2.500 espectadores, ultrapassámos 52.000 em 2015. É esta consolidação e solidez que nos conforta e empurra para mais MONSTRAS.

Sentem, a cada edição, que estão a libertar a vossa criança interior?
Acho que estamos a libertar a nossa criança interior, mas também a libertar as outras crianças – e as crianças dos outros adultos – mostrando-lhes filmes diferentes, inovadores, “subversivos” que, de alguma forma, também os liberta para vôos e sonhos maiores, pois estão suportados pelo conhecimento de mais diversidades e diferenças culturais e artísticas. Somos mais livres quando sabemos mais e temos mais diversidade dentro de nós, independente da nossa idade.

Qual o motivo da escolha da ex-Jugoslávia para a MONSTRA 2016?
A ex-jugoslávia é um dos países – atualmente um conjunto de sete países – com uma das escolas estéticas mais inovadoras e importantes da animação europeia. A conhecida “escola de Zagreb” ligada à Zagreb filmes iniciou a sua atividade há 75 anos e tornou-se num importante centro de animação sendo, por exemplo, um filme Jugoslavo o primeiro filme não “americano” (USA) a ganhar um Óscar.
É esta data, 75 anos, a par da importância da antiga e atual cinematografia de animação dos países que compõem a ex-jugolavia que levou à sua escolha. Será uma das maiores retrospetivas até hoje realizadas, composta por 165 filmes. Alguns ainda muito ligados à estética “Zagrebiana”, outos a criar uma linha emancipada dentro de cada país, independente.

No ano passado tivemos uma sessão Drive-in, este ano temos o Bike-in… Para o ano devemos esperar o Walk-in ou o Run-in?
A arte em geral, e a animação em especial, são espaços de criatividade e inquietação. É nesse mundo que nos queremos manter, trazendo a cada ano um olhar diferente também na forma de mostrar e motivar os diferentes públicos. Assim será difícil dizer já o que será, mas a promessa fica, haverá novidades e, tal como o BIKE-IN, inovadoras e criativas

O cinema de animação feito em Portugal tem cada vez mais qualidade porque só os bons subsistem ou está cada vez mais pobre porque os melhores “fugiram” do país?
Eu diria que está mais rico porque mesmo com algumas saídas, têm ficado os muito bons e têm “nascido” novos que prometem, pelo bom trabalho que já apresentam, tornarem-se também muito bons. É bom realçar que o cinema de animação português continua a ser das artes nacionais mais premiadas internacionalmente, sendo constantemente considerado e convidado para os grandes palcos do cinema de animação Mundial.
A MONSTRA nas suas ações internacionais – A MONSTRA à solta no Mundo – leva regularmente o cinema português aos 5 continentes e é testemunha da grande adesão de todas as culturas à arte da animação realizada por autores nacionais.

Numa altura de crise, será que as pessoas procuram o cinema de animação para se refugiarem do mundo lá fora?
O Cinema de Animação é como a poesia. Tem uma capacidade de metaforicamente e em curtas “linhas” dizer muito. E diz esse muito, na maioria das vezes, não como um refúgio, mas como uma afirmação do que se passa no mundo, nas culturas e nas relações humanas. Frontalmente, sem receios. Por isso vejo muito mais a animação como uma voz de alerta do que como uma arte que pretende criar refúgios. E é nossa intenção que, quem vem ao festival, não venha apenas para encontrar um momento de descontração, mas também de intervenção cultural e cívica e que saia reforçado na sua capacidade de ver o mundo sem medos e de uma forma mais aberta, positiva, criativa e estimulante.

Para aqueles que nunca vieram à Monstra, se tal for possível, é mesmo preciso ser-se um adulto muito infantil para gostar de cinema de animação?
Eu diria que sim e não. Nunca devemos perder o lado bonito do infantil, mas devemos sempre ter a nossa capacidade de raciocínio e pensamento para entender de forma profunda as propostas dos filmes mais adultos. Não ter medo de rir, de se emocionar, mas também não ter medo de pensar, refletir e agir, com as propostas dos filmes que apresentamos nas diferentes programações.

E se formos adultos ultra crescidos e super responsáveis, temos mesmo de ver filmes de animação, porque…
…os filmes de animação são, subversivos e encantadores, agitadores e sonhadores. Têm a capacidade de nos ajudar a pensar e a transformar o mundo. São capazes de ser tudo o que quiserem e o que nós quisermos. E ajudam-nos a entender que o mundo ultra crescido e super responsável pode ser também muito divertido e descontraído.