João Botelho

João Botelho quase que dispensa apresentações. O cineasta transmontano, nascido por um acaso em Lamego mas de coração Lisboeta, faz da cidade alfacinha o seu lar há já 40 anos. Conhecido não só pela sua vasta obra cinematográfica, mais recentemente pelos sucessos de bilheteira ‘Os Maias’ e ‘Filme do Desassossego’, encontra nas camadas mais jovens um grupo de fãs que se identifica com o seu lado mais boémio, sempre presente nas suas lendárias saídas pela noite lisboeta.

Nesta exclusiva entrevista que concedeu à Le Cool Lisboa, João – como gosta de ser tratado – sentado à mesa do Quiosque do Refresco no Príncipe Real, revela não só esse seu lado boémio como também o seu lado intelectual, político e crítico sobre a Sociedade actual, assim como o seu roteiro ideal para esta que é a cidade do seu Desassossego.

João Botelho, o homem do Desassossego, tiveste a arca de Pessoa contigo em casa…
Foi no Conversa Acabada, não foi no Desassossego.

OK, começo com o pé esquerdo… Mas como é que isso te acontece?
O Pessoa, ao contrário do que as pessoas pensam, não era muito conhecido. O Estado estava-se a borrifar. A sobrinha-neta dele tinha a arca em casa e o Estado não queria comprar. Eu fui lá, falei com ela, e tive a biblioteca toda do Pessoa. Fiquei com os cadernos do António Ferro todos anotados por ele em casa, podia ter ficado rico! O Estado só comprou quatro anos depois… O Desassossego não estava editado. A primeira edição dos poemas do Pessoa em Inglês – da Pinguim – tem na capa Fernando Cabral Martins, não tem Pessoa. Foi depois do Conversa Acabada, não antes… Até lá, havia conhecimento de Pessoa no Brasil – onde tinham feito umas edições fantásticas – havia uns conhecimentos em França, e havia traduções… Em Inglaterra, nada! E quando surge o livro do Desassossego, que estava espalhado na arca que tinha em casa, (que, aliás, já vai na décima edição) não chegaram à versão final porque aquilo é…

É impossível de organizar?
Vejamos, porque há coisas com LD atrás e julgam que é do Livro do Desassossego, mas não é…
Até eu cometi um erro… Há um provérbio que diz que “Deus é bom, mas o Diabo não é nada mau” que não é do livro do Desassossego e eu pus como se fosse porque estava numa edição do livro. Era de uma nota que vinha de um provérbio do Gerês Transmontano, que tem que ver com as bruxas, com a feitiçaria e os celtas… Que é “Deus e os Lobos, o Diabo… Eu achei graça à frase e pu-la lá, mas não é…
Ele tinha tudo organizado, mas andaram curiosos e investigadores a mexer naquilo e removeram tudo. Ele tinha tudo atado, preparado para edições futuras. Morreu com 47 anos, em ‘35 tinha editado dois livros: um de poemas ingleses e a Mensagem, que ganhou um segundo prémio. Não tinha mais nada! Deixou duzentos mil escritos dentro do raio de uma arca.
Tive acesso a essas coisas: os óculos, a cigarreira… Tudo, assim na mão… Só fiquei arrependido de não ter feito fotocópia [risos]. Encontrei lá uma canção que parecia do Cole Porter, em inglês, escrita por ele… Uma canção de amor… Nunca a vi publicada, uma coisa incrível! Ele tinha tanta coisa, tanta coisa… E eu tinha aquilo em casa.
E nem um privado qualquer quis comprar a arca… Cinquenta mil euros! Mesmo vazia é uma coisa do carago! Eu sei que vão dizer que é um pedaço de madeira… Mas não é!

Ou seja, o Estado continua a tratar mal a Cultura?
O problema principal nem é a Cultura, eu acho que é a Educação. É o maior desastre… Nivelaram tudo por baixo. Eu tenho três filhos e trabalhei muito mais com o segundo que com o primeiro e muito mais com a terceira que com o segundo.
O problema da Cultura é que nela cabe tudo. Na Arte não! O ex Ministro da Cultura, que saiu graças à sua burrice, foi ao lançamento do livro do Carlos Cruz…. Quer dizer, onde é que isto pára…? Qual é a fronteira? Devíamos ter um Ministério das Artes forte que desse aos artistas e não aos intermediários. Porque este é o reino dos intermediários, a Cultura. É verdade que os artistas são muito incompetentes com a gestão do dinheiro, portanto o facto de haver produtores deu jeito, mas se vires bem, os produtores não investem um tostão, são gestores do dinheiro público. Todos os filmes portugueses deviam ser do Estado, da Cinemateca… Pagavam os Direitos aos Produtores, mas deviam ser Património Público.

O Estado não sabe aproveitar esse Património?
Não! Às vezes até incomoda. Como há liberdade para filmar, não é conveniente ao Governo que lá está. O sonho dos Governos é ter audiência e população. O sonho deles é terem coisas populares. Lembro-me uma vez com o Guterres, passei-me…! Andávamos a lutar para que houvesse uma taxa sobre o audiovisual para haver dinheiro para o cinema e ele: “Ah, vocês existem quando têm umas criticazinhas lá fora. Quando eu vou ao cinema, quero é divertir-me e descansar e vocês fazem filmes que chateiam, em que não se passa nada…” O Guterres, que e um tipo que é formado, tem mundo, é uma pessoa que vai aos sítios… E eu disse-lhe: “o Senhor diverte-se com os três tenores – porque ele tinha a mania de estar no carro a ouvir os três tenores e o Bocceli -, mas eu posso-me divertir com o Schöneberg, com o Rothko… Cada um diverte-se à sua maneira!

Mas não é a Democracia “pão e circo”?
É, mas eu não encontro coisa melhor para a vida do que a Democracia. Há é uma perversão terrível da Democracia… Hoje quem manda é a Finança. Em Nova Iorque, transaciona-se, diariamente, dez vezes tudo o que se produz no mundo. Há qualquer coisa errada. E, neste momento, há uns especuladores financeiros… Já nem falo nos “Panama Papers”, que são anónimos ou que escondem… Tu podes ter a mandar no mundo dois malásios, três americanos, um chinês, que especulam na bolsa e destroem países e bancos.

E Lisboa, anda a ser destruída ou bem gerida?
Eu adoro Lisboa, adoro esta terra porque é habitável… Quer dizer, é muito difícil para trabalhar. Vejo por causa dos meus filhos, que têm dificuldades para trabalhar, mas é uma cidade que é habitável, é confortável… Mas está a ficar muito barulhenta. Isto era uma aldeia, era maravilhoso. O meu merceeiro, o tipo do quiosque, o dos jornais, a senhora da farmácia que sabe a vida de toda a gente… Agora está-se a perder… Lisboa era um sítio onde se conversava, agora não se ouve um pássaro aqui.

Estamos a ser invadidos por turistas…
Por um lado isso é bom – para o negócio e para os comerciantes -, mas é redutor em relação a Portugal. Tu vais à Baixa e os turistas falam alto e acham que ninguém os entende. Tudo a falar alto – os Italianos, os Espanhóis, os Ingleses – e não ouves uma palavra de português. Por momentos, parece-te uma coisa estranha… Mas por outro lado: bem-vindos!

E Lisboa?
Lisboa, se tu vires casa a casa, de muito perto, é feia. As arquitecturas, é tudo uma confusão! Mas de longe, os sete miradouros… É maravilhoso! É um set de cinema! Não chove muito, é ameno, comparado com os nórdicos… Não somos bem Europa nem África, somos qualquer coisa intermédia. Temos esta atitude de saber receber os outros – que em Portugal o fosso não é entre raças diferentes, é entre ricos e pobres. Mas sabemos receber as pessoas, integrar o outro, e isso tornou Lisboa uma cidade engraçada.
Temos 500 mil habitantes. Já teve um milhão ou 900 e tal mil, mas foi tudo para a periferia e as pessoas ao invés de trabalharem oito horas passaram a trabalhar 14. Porque deslocarem-se duas horas de carro, com filas… O tempo que perdem, o dinheiro que gastam… O melhor era não terem saído de Lisboa.

Lisboa é um desassossego?
É, é… Mas há sítios… Por exemplo, o Manel Reis inventou a frente ribeirinha e foi bestial. Começou a haver um acesso maior ao rio. Aquela coisa da Ribeira das Naus… Há arquitectos que acham aquilo muito mau, eu não acho porque é um sítio de pausa. É uma coisa calma e tem o rio logo em frente. Eu lembro-me de Lisboa tapada para o rio. Não se via o Tejo, só se via no Carmona e Salazar, que são aquelas colunas maçônicas. Aquilo são as portas do Templo de Salomão, aquelas duas coluninhas, por isso é que se chamam Carmona e Salazar e não outra coisa. O Terreiro do Paço é incrível. É feito com a dimensão exacta do Convento de Mafra. O Senhor Marquês de Pombal era mesmo um ser iluminado…

Os Lisboetas estão a redescobrir a sua cidade.
Estão, mas a descobrir a sua cidade empurrados pelos turistas. De repente os turistas vieram e disseram “aquilo é bom” e lá vão os portugueses ver. O Museu de Arte Antiga está cheio de pessoas, trazem aquelas colecções mediáticas… As pessoas saem mais, vão ao Jardim Botânico e descobrem que há umas árvores fantásticas… As Praças…
Há sítios engraçados em Lisboa. O Martim Moniz, se calhar é a arquitectura mais feia que eu vi na vida, é um sítio maravilhoso. Há gentes de todas as raças, a poeira do Império… A Rua do Bom Sucesso é maravilhosa. A Praça da Figueira é cosmopolita e é o único sítio onde ninguém me trata por “você”. “Ó João, o que é que queres?”, dizem-me. E esse tipo de coisas acontece ali, uma coexistência… E não há muita confrontação… Adoro aquilo.

E já agora, um roteiro pela Lisboa do João Botelho?
Olha, por exemplo, há uma árvore ali (Jardim do Príncipe Real) que o João César filmou e eu também filmei no Conversa Acabada… Aquele cedro achatado que está ali, que eu aponto sempre como a origem da vida e do movimento, que esteve a morrer e foi curada com sangue de boi… É um sítio emblemático. Depois há uma coisa que as pessoas não conhecem muito, que é entrar aqui na Mãe d’Água e fazer esse percurso por baixo… Entras por ali e de repente, ao sair, abres uma portinha muito pequenina e apanhas a luz toda de Lisboa em São Pedro de Alcântara… Oh Lisboa, meu lar em frente, aquela visão magnífica.
Depois, eu gosto do Cais do Sodré, mas já não gosto à noite. É demasiado voyerista, as pessoas incomodam, conversam de mais, barulhos de mais… Mas gosto ao fim da tarde. Para beber um copo é maravilhoso.
Mas uma das coisas mais bonitas em Lisboa é o amanhecer no Cais das Colunas. De trinta em trinta segundos, fechas e abres os olhos, e é outra luz… Se gostas de luz, é aquilo! Aquilo é do outro mundo, fiz lá de uns amanheceres boas experiências de Lisboa.
Um sítio onde as pessoas devem ir é ao Jardim da Gulbenkian. É um jardim notável do Ribeiro Telles. Tal como o Miradouro do Monte Agudo, na Penha de França, é das coisas mais bonitas de Lisboa. São coisas secretas que as pessoas não conhecem muito. Já para a noite há tascas maravilhosas e baratas…

E o Lux?
O Lux é o fim da noite. Mas sabes porque é que eu vou ao Lux? Os meus colegas – alguns – fazem ginástica, outros têm personal trainer, outros andam de bicicleta… Eu danço, o que é uma actividade engraçada. Levo cinco mudas, cinco t-shirts, que eu suo muito. Nunca me embebedei na vida, aquilo sai-me tudo… E de hora a hora mudo porque é chato estar todo molhado. Tenho lá um sítio, um gabinete… O Manel [Reis], devido à minha avançada idade, deu-me uma chave que abre as portas e guardo lá as minhas coisas… Mas o Lux tem outra vantagem: é tão grande que podes ir para a varanda, para o terraço, podes ir para baixo, para o escuro, para a claridade… Aprendi a gostar de música electrónica e até já fui DJ [risos]… E é esse tipo de coexistência com a noite que eu gosto: de sair, dançar… Não fica bem a um rapaz da minha idade, mas paciência! O limite é aos 70…