José Chaíça, Córtex

O Córtex – Festival de Curtas-Metragem de Sintra está de regresso para a 5ª edição, dividida entre o Centro Olga Cadaval e o novo MU.SA, Museu das Artes de Sintra. Sentimos a energia renovada de uma edição que traz duas novas secções – Mini Córtex e Hemisfério – e, claro, a sessão de abertura dedicada ao realizador Lars Von Trier. Aqui fica a conversa com José Chaíça, um dos directores.
Depois da pausa em 2014, o Festival está de volta… O que podemos esperar deste “novo” Córtex?
Esta é, sem dúvida, a nossa edição mais ambiciosa. Adiar o Córtex para 2015, deve-se exactamente ao facto de querermos fazer crescer o Festival e, para isso, precisávamos de ganhar mais alguns meses e deslocar o evento para uma altura do ano que fazia mais sentido para nós. Conseguimos alargar o Festival com muita programação paralela, novas secções, concertos, workshops e a chave de ouro que é a exibição, absolutamente inédita em Portugal, dos dois primeiros filmes de escola realizados por Lars von Trier. Portanto, as expectativas estão elevadas.

Há muitas e boas novidades na programação, sobretudo no que toca a novas secções. Pensando especificamente na Secção Hemisfério, que espaço é este?
Criámos um paralelo muito interessante entre os filmes realizados pelo Lars com apenas 24 anos, nos seus tempos de escola, e curtas realizadas exactamente na mesma instituição escolar, a Danish Film School, mais de 30 anos volvidos. A nova Secção Hemisfério vai permitir fazer essa ponte, onde estarão programadas, este ano, curtas-metragens realizadas pelos jovens estudantes da Danish Film School. Este espaço, todos os anos, abrirá portas a uma instituição internacional dedicada ao cinema, dando-nos a conhecer novas realidades cinematográficas e um novo olhar sobre o cinema que se faz lá fora.

Novo é também o Mini Córtex, porquê alargar o Festival ao público mais jovem?
Alargar o Córtex ao público mais jovem é, sem sombra de dúvida, um dos mais importantes objectivos concretizados nesta edição. A Associação Reflexo que produz o Festival, dedica grande parte do seu trabalho, há já 14 anos, à produção de teatro para a infância por todo o país. Faz todo o sentido para nós este passo. Até agora nunca tínhamos tido a disponibilidade financeira para o fazer, mas era algo que tínhamos absoluta convicção que faríamos assim que houvesse espaço para esse investimento. A Câmara Municipal de Sintra recebeu muito bem a ideia e o Mini Córtex, o espaço de cinema em competição dedicado aos mais novos, passou a ser uma realidade. Foi também evidente para nós que iríamos precisar da mestria de quem faz – e faz muito bem – este tipo de programação e, por isso mesmo, aliamo-nos ao Festival Monstra para programar esta nova secção.

E no que toca às habituais Competições Nacional e Internacional?
Mais uma vez, temos uma mão cheia do que de melhor se tem feito em Portugal e por esse mundo fora, dentro do formato da curta-metragem. A competição internacional passa a ter duas sessões em vez de uma, devido ao enorme aumento de curtas-metragens que fomos recebendo de todas as partes do mundo. Como é hábito, tentamos ter uma programação versátil e ecléctica, brindando um público com diferentes géneros e estilos de cinema.

Estão, portanto, contentes com os filmes que concorreram?
Sim, muito contentes. A escolha é cada vez mais difícil, devido à quantidade de muito e bom cinema que se vai fazendo um pouco por todo o mundo.

Há uma grande variedade de países na competição internacional, o que é motivo para orgulho…
Sim sem dúvida. Ter percepção que, de repente, estamos em todos os cantos do mundo, faz-nos sentir que o Córtex é algo que já não nos pertence, é do mundo! E nós criámos o Córtex quase como uma brincadeira, sem pretensões. Pensar que recebemos curtas do Médio Oriente, da Austrália e da Ásia é verdadeiramente emocionante.

E no que toca à realidade portuguesa, como está a saúde das curtas-metragens feitas por cá?
Não deixo de ficar surpreendido, todos os anos, com os trabalhos que vou vendo em Portugal. Há tantos e tão bons jovens promissores realizadores. Só espero que todo este talento veja o seu mérito reconhecido. Precisamos de uma viragem radical na forma como se pensam os apoios e a cultura em Portugal. Não são só as mentes brilhantes das ciências e das matemáticas que nos arriscamos a perder. Não há espaço, em Portugal, para que um jovem realizador desenvolva o seu trabalho e, invariavelmente, acabam por ser empurrados para fora do país. Espero que os futuros governos percebam, de uma vez por todas, que o mais importante investimento que se pode fazer por um país é na cultura. Infelizmente, por cá, é tratada como um fardo. É muito triste.