Maria João Andrade

Fotografia: Mike Ghost

Há momentos em que as palavras não são suficientes, principalmente se falarmos de uma fotógrafa como a Maria João Andrade. As suas imagens dizem tudo, dela e do objecto fotografado.
Escolher a película em vez do digital é reflexo de um ser que preserva o valor da vida, tal como ela é, sem máscaras, sem embelezamentos extras. Mostrar o que somos, gostar uns dos outros, respeitar, descobrir, partir para voltar, ser… Tudo valores que a Maria João Andrade guarda com carinho na sua vida. É assim que percorre este mundo e é assim que o vai mostrando. As capas que fez para nós são um pouco da “sua” Lisboa.

Explica-nos lá, agora por palavras, esta capa. O que lhe serviu de inspiração?
Esta é daquelas fotos em que agradeço ter comigo a máquina na altura em que ali passei. A loja fez-me parar por ser uma daquelas antigas lojas de Lisboa com tipografias lindas e por estar carregada de símbolos católicos. Quando olhei para o lado vi que um rapaz indiano e uma senhora mestiça se iam cruzar no caminho, e não hesitei disparar. É daquelas fotos que adoro porque tem um conceito por trás. Numa altura em que o mundo precisa tanto que religiões convivam pacificamente, fico feliz por ver na minha cidade tantas culturas e crenças diferentes. Lisboa é uma cidade do mundo inteiro.

Quem és e para onde vais?
Sou um ser humano como outro qualquer que faz esta viagem para tentar descobrir qual o seu papel no universo, com a consciência que faz parte de um todo. E tal como todos os outros vou voltar para onde vim, um mundo imaterial.

O que mais te agrada fotografar?
Pessoas.

Lisboa é uma boa fonte de inspiração?
É uma boa fonte de inspiração sim, mas como qualquer outra cidade onde se encontra um grande aglomerado de pessoas todas diferentes na raça na cultura, na crença e na idade.

Onde é que podemos encontrar mais exemplos do teu trabalho?
No meu instagram @maria.joao.andrade ou no meu site www.maria-andrade.com

Para ti, que imagem/sensação melhor define Lisboa?
É difícil definir Lisboa apenas com uma imagem ou sensação. O que a define é um conjunto de contrastes maravilhosos: pessoas velhas e novas, tal como os edifícios com história e os mais recentes, as antigas tascas e os restaurantes mais modernos, as lojas antigas ao lado das novas, as roupas estendidas e os gatos à janela em casas onde não adivinhas que tipo de pessoas lá vivem, será um casal de 60 anos ou um de 30!? Tudo parece conviver num espaço meio caótico, mas que na verdade faz muito sentido. É Lisboa.

Descreve-nos um percurso, um bairro ou uma história engraçada sobre a cidade.
A rua onde vivo é por si só engraçada, a General Taborda que fica em Campolide. Lá encontras uma das melhores tascas de Lisboa e das mais frequentadas, mesmo em frente a um dos mais famosos restaurantes de comida japonesa gerido por chineses. Um pouco mais abaixo a mercearia dos indianos aberta todos os dias e que nos safa a qualquer hora e o café dos amigos de Campolide onde vai malta nova jogar conversa fora. As vizinhas mais velhas contam as histórias de todos os que vivem no bairro e há o rapaz que entra para nos tentar vender óculos, perfumes e pólos, tudo dentro de um enorme saco de plástico preto e que acaba sempre por ficar à conversa. É um entra e sai de pessoas muito diferentes, é lindo!
E ainda, a funerária ao lado do café que até já foi notícia de televisão por causa da pessoa com mais timing de sempre na hora de morrer, mesmo à porta da funerária. Esta rua representa o que mais gosto e quero para Lisboa: mais mistura de pessoas, mais contrastes, mais carisma, mais multiculturalidade, tudo em harmonia.

Há algum destino/lugar dentro de Lisboa que seja só teu e que não resistas a partilhar?
É meu e de todos os Lisboetas, o Jardim da Estrela, pela antiguidade, pelo ambiente e por ser um pedaço de natureza no meio da confusão. Ir até ao Jardim da Estrela passar uma hora na esplanada é como tirar férias por uns momentos, esqueço-me de tudo.