Stefano Savio

Foto: Joana Linda

Está a chegar mais uma edição da Festa do Cinema Italiano – já vamos na nona! Com algumas novidades, novas cidades a receber a Festa e a entrada nos cinemas El Corte Inglés, é por isso, tempo de falar com Stefano Savio, Director Artístico do 8 1/2:

Chegámos à 9º edição da Festa do Cinema Italiano: o que tem sido o melhor destes 9 anos de cinema italiano em Lisboa?

Esta pode ser uma pergunta muito pessoal, no crescimento deste projeto há prazeres e sucessos que partilhamos com o público, outros que são mais privados e íntimos que se passam nos bastidores do festival. De certeza, a afirmação da Festa dentro de um conjunto de festivais “adultos” foi uma importante realização, mas se olhar mais de perto, são as pequenas coisas que depois revelam a nossa paixão e o nosso gosto. Lembro-me de há alguns anos enchermos o Nimas com uma sessão de leituras sobre Tabucchi. Não estávamos a acreditar! Houve quem chorasse de felicidade. Lembro-me também de uma apresentação no Cinema King do realizador do Almoço de 15 de Agosto, Gianni di Gregorio. As pessoas não paravam de rir. Tivemos de atrasar a sessão a seguir.

Sabemos que é difícil escolher, mas o que nos destaca o diretor para a Festa deste ano?

Não é tão difícil. Pessoalmente, o filme que gosto mais este ano é Anna (Per amor vostro) de Giuseppe Gaudino com uma maravilhosa Valeria Golino. Também O Conto dos Contos de Matteo Garrone é um grande filme. Dentro da equipa, torcemos todos pelo Lo chiamavano Jeeg Robot, uma surpresa para todos os espectadores. Suburra de Stefano Sollima é uma killer application que será um sucesso também em Portugal. Depois há a cópia restaurada do 8 ½ de Fellini, num outro campeonato, muito especial.

Nesta edição, a Festa irá também chegar a uma das salas dos cinemas UCI – no El Corte Inglés. Qual a importância desta deslocação? É uma forma de tentar levar os filmes para junto de outro público que não procura tanto as festas e festivais de cinema?

Existe um percurso no nosso crescimento que cada ano ficou mais claro. Percebemos que não estávamos interessados em criar mais um festival de cinema (há muitos e muito bons em Portugal) mas em desenvolver uma realidade híbrida que jogasse em dois planos, um evento cultural e social no tempo e no espaço e uma distribuição que pudesse difundir e espalhar os nossos conteúdos (e dos nossos parceiros) em diferentes canais ao longo do ano.

A escolha do Cinema UCI – El Corte Inglés como uma das salas com mais público em Portugal e onde muitos filmes querem estrear, segue este caminho de aproximação a uma realidade mais ligada ao mercado audiovisual de que ao evento de promoção cultural. Decidimos misturar os dois mundos, às vezes há surpresas.

O número de espectadores tem crescido de ano para o ano na Festa. Quais são para ti, as razões que explicam este sucesso?

A qualidade da produção cinematográfica italiana dos últimos anos ajudou muito a nossa tarefa. Depois percebemos que a crise dos festivais generalistas demonstrava que o público procura sempre mais eventos com uma identidade clara e definida, não necessariamente com uma oferta muito extensa, mas mais coerentes com a própria natureza. Eventos que comunicam a própria proposta em maneira unitária. As pessoas que vão à Festa não se podem enganar, o prato principal é cinema italiano. A nossa fortuna e a nossa riqueza é que entre A Vida é Bela e Asino Vola (curiosa e corajosa primeira obra apresentada no festival de Locarno) os sabores são bem distintos.

Há também mais cidades dentro de Portugal a receberem a Festa, bem como novos países – Brasil, Angola e Moçambique. Sentem um crescente interesse pelo cinema italiano, um pouco por todo o mundo?

Da nossa experiência, podemos dizer que geralmente não é o cinema italiano a fazer falta, é o cinema em geral que desapareceu de muitos sítios. Há cidades onde só eventos específicos como o nosso trazem uma programação diferente do blockbuster americano. O público interessado diminuiu mas não desapareceu completamente. É preciso quebrar uma inércia perigosa que afasta os espectadores curiosos do cinema, por falta de oferta mas também pela criação de nichos demasiados fechados. O cinema italiano (como também o francês e de outras cinematografias que tiveram força e espaço em Portugal) pode ser uma primeira abordagem para voltar a acordar o interesse e sobretudo a prática do espectador comum de ir à sala.

A cinematografia italiana foi sempre bem sucedida ao longo dos tempos. O que há de abrangente e global no cinema italiano?

Acho que temos um particular jeito para contar histórias (na maioria nem sempre verdadeiras) e apaixonar os nossos ouvintes. Depois há uma natural predisposição à beleza que é um bem facilmente exportável. Em alguns períodos cruzaram-se nos sets de Cinecittà verdadeiros génios. Depois uma indústria cinematográfica não perfeita mas muito vital e fantasiosa conseguiu alimentar estes mitos ou criar outros percursos de sucesso. Não esquecemos que em Itália havia Rossellini e Pasolini mas também um cinema popular e de género que se difundiu em todo o mundo.

Já agora, qual é a tua opinião sobre o cinema que se está a fazer em Itália actualmente?

Sinto que o cinema italiano voltou a ter coragem, também a nível de produção. Matteo Garrone realiza um fantasy de autor com um cast internacional (O Conto dos Contos), Stefano Sollima foi chamado pela Netflix para criar uma nova série de TV a partir de Suburra. Mainetti estreia-se nas longa-metragens com um filme de super-heróis. Tornatore, Muccino e Guadagnino trabalham com os estúdios americanos. Tudo isso sem perderem a própria identidade, talvez ampliando-a.

O Humorista Checco Zalone vai estar presente na sessão de encerramento da Festa – sendo o actor principal de Quo Vado. Queremos saber: italianos e portugueses têm um sentido de humor muito diferente, ou rimos-nos das mesmas coisas?

É uma aposta. Em Itália Quo Vado? teve uma receita na bilheteira três vezes superior em relação à do último episódio de Star Wars. É um modelo que claramente não se pode replicar em todos os países mas tirando algum humor ligado a factores linguísticos (a riqueza e a diferenciação dialectal é provavelmente a maior fonte cómica nos filmes italianos) existe uma história bem contada e personagens bem desenhados que podem funcionar também em diferentes latitudes. O Checco Zalone tem a virtude de contar em forma de fábula a realidade nem sempre hilariante dos nossos tempos. Uma realidade que Portugal e Itália partilham.