Tiago Sousa

Fotografia: Vera Marmelo

 

Tiago Sousa é um músico auto-didacta, cujo trabalho, para lá do epíteto erudito, se centra na música para piano de abordagem minimalista. Um homem que realiza sonhos, que não baixa os braços e que relembra com carinho a oferta da avó: um piano vertical, ao regressar a casa após uma fase de busca interior pela sua identidade criativa.

Tiago toca a solo ou em grupo, criando sempre sonoridades tão magníficas e envolventes, enchendo salas que ficam impregnadas de energia e introspecção. Insónia, Walden Pond’s Monk ou Samsara são sons que ficam gravados no corpo. De Tiago conhecemos também bandas sonoras (Bibliografia de Miguel e João Manso) ou o som de Pão e até quem sabe, reconhecemo-lo como criador da netlabel Merzbau. Este Abril podemos voltar a vê-lo em palco no Teatro Maria Matos, com o projecto Coro das Vontades, uma obra criada no âmbito do Dia do Manifesto, entre outras novidades.

A tua obra musical tem sempre uma ligação ao lado literário. É a música que te leva a um livro ou o contrário? De que forma uma é complemento da outra?
Não me interessa música que seja só sobre música. Interessa-me explorar a vida em toda a sua magnitude. A música que faço tem dentro palavras, imagens, histórias e pensamento. A exploração de uma linguagem com tantas possibilidades como a linguagem musical só faz sentido explorando os seus limites.

Este Coro das Vontades fez-te certamente sentir ainda mais de perto a Voz Humana. Achas que as pessoas estão assim tão alienadas e afastadas umas das outras como os media e as novas tecnologias nos fazem crer?
Existem de facto muitos mecanismos de alienação na nossa sociedade. Este disco foi uma oportunidade para reflectir sobre essas relações na nossa sociedade, em particular no nosso país. A partir daí tentámos ensaiar uma possibilidade alicerçada na ideia de vontade. A vontade como meio de afirmação e de autonomia do ser. A verdade é que esta ideia de separação não surgiu como consequência de uma convicção nossa mas sim por estar expressa nas preocupações e questões presentes nos textos que nos foram enviados. A ideia que perseguimos é que a emancipação é um processo que pode tomar lugar sejam quais forem as condições sociais e esse depende da reflexão sobre aquilo que nos é dado sentir e pensar em determinado momento. A partir da transformação desse adquirido é que podemos negar o que nos é imposto de fora e aludir ao exercício da individualidade e da restituição do possível.

Como foi a reacção a estes coros nos outros países e como pensas que será em Portugal? Temos realmente capacidade para nos ouvir uns aos outros ou o português é um bocado surdo e tendencialmente só se ouve a si mesmo?
Daquilo que nos foi dado a entender, foi uma reacção muito viral. A experiência está documentada aqui e é muito interessante. Mas em grande medida interessou-nos extrapolar esta experiência por um conjunto de indagações que foram surgindo à medida que líamos os textos que recebemos. Não me parece que essas questões possam ser resumidas na síntese do “ser português”, achamos que esse tipo de premissas está cheio de mitos e constrangimentos sobre o que nos é dado sentir. Daí que, mais do que fazer eco desses textos nos tenha interessado implicarmo-nos por inteiro no processo. Questionando duas premissas conceptuais sobre o autor e a obra. Não quisemos nem colocar-nos acima, propondo uma visão vanguardista, nem abaixo, colocando-nos como porta-estandarte de uma qualquer vontade popular. A nossa postura autoral implica-nos no processo. O que fizemos foi reagir e construir a partir desse caldo cultural em que nos encontramos.

Que pontos comuns encontraste nos Manifestos?
Ao ler os textos, por diversas vezes, sentimos a presença e problematização desta separação. Os textos eram a expressão do entendimento da acção política como um exercício de competências que não compete ao cidadão comum, mas antes o resultado da técnica e da especialização. Alguns textos apresentavam questões, outros direcções e foi no meio disto que desenvolvemos conceptualmente o trabalho. Dois dos textos foram incluídos na íntegra precisamente porque respondiam a essa problematização indo de encontro à nossa tese.

Onde te inspiraste para musicar cada manifesto? Como foi feita a escolha musical de cada um?
Como recusámos seguir os passos propostos pelo Complaints Choir original, tornava-se difícil musicar os textos sem um trabalho específico para adaptar a palavra ao canto. Mas, tal como expliquei acima, não era tanto esse trabalho de musicar na integra os textos enviados que nos interessava. Esteticamente, a ideia da composição musical partia da premissa da simplicidade e do investimento na harmonização modal enquanto modo de aludir às práticas que antecedem a especialização da arte musical.

Nota-se que és uma pessoa presente e que se importa com o caminho da sociedade. Que rumo gostarias que o Mundo seguisse?
Mais do que especular sobre o caminho a seguir, interessa-me o que podemos fazer agora. Não precisamos anunciar os amanhãs que cantam, a derrocada do sistema, ou uma intensa batalha entre as classes para que a emancipação possa operar com consequências importantes. Essa emancipação joga-se no modo como distribuímos os papéis e contamos a nossa história. Como estabelecemos o terreno que transforma o campo social e ideológico e recusamos o modo unidireccional da actividade produtiva capitalista para recuperar a ideia de que a criação não está guardada para o artista mas é um lugar onde todos se podem encontrar.

Num tempo em que tantos emigram e sentem que a cultura não é querida por cá, o que te faz ficar em Lisboa?
O mesmo que me faria ficar noutra cidade qualquer. Na realidade não acho que as nossas questões nos sejam assim tão exclusivas e o modo de operar no meio delas é muito semelhante ao modo de operar noutro local qualquer. É verdade que as condições económicas são bastante difíceis mas, de qualquer modo, seriam igualmente difíceis noutro sítio considerando aquilo que estou a fazer. Por isso, e pelas pessoas, gosto de estar aqui.

Ciclista convicto, conta-nos lá qual o teu sítio preferido de Lisboa para amarrares a tua bicicleta e respirares a cidade?
Acontece regularmente que a bicicleta fique presa à porta dos jardins da Gulbenkian para assistir a um concerto, ou da garagem do RDA para ir comer e encontrar pessoas, ou no largo de Santos para ir comprar um livro à livraria da Guilherme Cossoul.